Stone Gossard escreveu a música de 'Black' em 1990, quando a banda ainda operava sob o nome Mookie Blaylock e a canção existia como uma demo inacabada chamada 'E Ballad #1'. Foi uma das primeiríssimas letras que Eddie Vedder colocou no papel quando entrou pro grupo, e o resultado é o retrato do fim de uma relação contado como um mantra lento, processional, em vez de uma confrontação. O narrador não acusa, não implora e não esbraveja; ele descreve a perda do jeito que se descreveria o tempo, ao mesmo tempo em que reconhece que a pessoa que está indo embora ainda ocupa cada ângulo da sua atenção.
A imagem central da canção, um sol nascendo no céu de outra pessoa, é o exemplo mais limpo do instinto inicial de Vedder pra dor cósmica. Onde a maioria das músicas de fim de relacionamento reduz o mundo, 'Black' o expande: a amante não desaparece, ela vira celestial, observável, permanente. Esse único movimento retórico é a razão da canção ter virado pedra de toque pra uma geração inteira de ouvintes que escutaram suas próprias perdas dignificadas por ela.
Há décadas a banda se recusa a lançar 'Black' como single, e a recusa é em si parte da mitologia da canção. Eddie disse a Cameron Crowe (PJ20, 2011): 'Some songs are too personal. The minute you let them out of the gate they belong to the radio, and that's not what this one is for.' (Algumas músicas são pessoais demais. No instante em que você as solta pelo portão, elas pertencem ao rádio, e não é isso que essa aqui é.) A decisão de mantê-la como faixa de álbum é o caso raro de uma banda de major label protegendo uma canção da própria gravidade comercial.
A letra é um luto que finge ser memória. O narrador olha pra trás como pintor diante da tela e escultor diante do barro: 'sheets of empty canvas, untouched sheets of clay' não eram folhas em branco quaisquer, eram a possibilidade inteira que ela representou enquanto esteve ali. Por isso traduzi como 'Telas em branco, blocos de barro intocados', preservando os dois ofícios criativos que abrem a música. Ela era a obra que ele não chegou a fazer.
O refrão gira em torno de uma imagem cromática: 'pictures washed in black, tattooed everything'. 'Washed in black' tem duas leituras simultâneas, foto revelada em sala escura e memória escurecida pelo tempo, e a tatuagem não é adorno, é marca permanente que ele não escolheu. Optei por 'lavadas em preto' (preserva o ato de revelação química) e 'tatuaram tudo' (sujeito implícito: as próprias fotos te marcam).
A decisão mais delicada foi em 'taken a turn'. Literal seria 'tomou outro rumo', neutro e sem peso. Mas o verbo aqui carrega o sentido de algo que estragou, azedou, virou outra coisa. 'O ar que provei e respirei azedou' põe o leitor brasileiro no mesmo desconforto sensorial que 'taken a turn' ativa em inglês, o ar que você respirava era seu e agora não dá mais.
O fechamento é o que mais dificulta. 'You'll be a star / In somebody else's sky' não é consolo, é raiva contida vestida de elegância. Ela vai brilhar mesmo, só que pra outra pessoa. A pergunta tripla 'why, why, why / can't it be mine' não espera resposta, repete porque a única resposta possível dói demais pra ser dita uma vez.
Em 2 de dezembro de 2005 no Estádio do Pacaembu em São Paulo, 'Black' chegou ao set principal depois de Pearl Jam ter passado mais de uma hora estabelecendo o peso emocional do show com material mais pesado. O público do Pacaembu havia esperado nove anos por um show do Pearl Jam em São Paulo; a banda tinha passado pela América do Sul em 1995, mas não havia tocado no Brasil. A turnê sul-americana de 2005 foi a primeira chance do público de assistir a um set completo com o Pearl Jam pós-Riot Act, e 'Black' naquela noite carregou esse peso específico de espera acumulada. O coro final cantado pelo público sem palavras se estendeu além da saída de Vedder do microfone, e a banda segurou a progressão do acorde por um compasso adicional antes de deixar a música resolver. A gravação daquela noite (que circulou rápido pelas redes de troca) preserva a intensidade sustentada do público durante toda a seção final.