SÓ MAIS UM FÃ DE PEARL JAM

Once

Disco: Ten (1991) · Tocada 368 vezes ao vivo pelo Pearl Jam · estreia ao vivo em 22/10/1990 · última vez em 18/05/2025

Interpretação

'Once' é a segunda faixa de Ten (1991) e a segunda parte do que Vedder mais tarde nomeou de trilogia 'Mamasan' (as outras sendo 'Alive' e 'Footsteps'). Onde 'Alive' descreveu a descoberta do narrador de que seu padrasto não era seu pai biológico, 'Once' descreve o mesmo narrador se tornando um serial killer em resposta a esse conhecimento. A trilogia é, portanto, um arco narrativo completo: revelação, transformação, captura. Ouvir as três músicas em ordem é a forma canônica de entender o que Vedder estava fazendo em Ten.

A música começou como uma peça instrumental escrita por Stone Gossard e Jeff Ament que a banda, ainda operando como Mookie Blaylock, vinha chamando de 'Agytian Crave'. Essa demo havia sido circulada pra Vedder junto com a demo que viraria 'Alive', e Vedder escreveu as duas letras durante o mesmo período no fim de 1990. As duas músicas compartilham material melódico nas suas pontes, que é a impressão digital estrutural da trilogia. Quem reparou no eco melódico entre as duas reparou no projeto de Vedder.

A letra é um relato em terceira pessoa da transformação do narrador. A música não editorializa. Não condena o narrador. Não o redime. O instinto de Vedder no material inicial do Pearl Jam era recusar a postura moralizante que letras da era grunge frequentemente assumiam diante de personagens danificados; 'Once' é a demonstração mais clara dessa recusa no catálogo. O narrador tem permissão pra ser terrível, e a música tem permissão pra ser catártica, e o ouvinte fica encarregado de fazer sentido do que essa combinação significa.

Musicalmente, 'Once' é uma das coisas mais agressivas de Ten. O riff de verso de Stone Gossard é uma série de intervalos descendentes em palm-muted; a ponte libera a tensão em uma seção de solo que Mike McCready citou em PJ20 como um dos momentos em que ele encontrou a própria voz como guitarrista do Pearl Jam em vez de imitador de Hendrix. A bateria de Dave Krusen na gravação original (Krusen foi o primeiro baterista da banda, e Ten foi o único álbum em que tocou) é parte do trabalho mais castigador do disco.

Notas de tradução

Se 'Alive' é o momento do impacto, 'Once' é o que se faz com ele. A segunda parte da trilogia Mamasan é um monólogo de pré-eclosão: o narrador está encostado em algum lugar com uma arma escondida nas roupas, e a voz que você ouve é a dele tentando organizar o que sente. O título não é 'era uma vez' de conto de fadas, é 'houve um tempo' de memória pessoal, e a diferença importa: ele está olhando pra um eu anterior, não pra uma fábula. Traduzi todas as ocorrências como 'houve um tempo em que' pra manter essa distância temporal específica.

A descrição física do narrador é um catálogo de armas e amantes intercambiáveis. 'Backstreet lover', 'sixteen gauge', 'temple' (têmpora, não templo: a bomba na cabeça é literal antes de ser metáfora), 'passenger seat'. As mulheres aparecem como objetos do mesmo modo que a escopeta, e essa equivalência é o horror que a música documenta sem condenar. Traduzir 'play' como 'finjo' devolve a ambiguidade entre brincadeira, atuação e simulação de violência.

O fechamento é um dos momentos mais frios do álbum. As repetições em escada, 'control myself / lose myself / love myself / love you', traçam a progressão da perda: ele perdeu o controle primeiro, depois a si mesmo, depois a capacidade de se amar, e por último a capacidade de amar o outro. A música termina antes de mostrar o que vem depois. Em 'Footsteps' veremos a captura na delegacia. Aqui ele ainda está no carro, mão no bolso, rezando pra que algum reflexo o devolva a si.

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