SÓ MAIS UM FÃ DE PEARL JAM

Porch

Disco: Ten (1991) · Tocada 662 vezes ao vivo pelo Pearl Jam · estreia ao vivo em 22/12/1990 · última vez em 16/05/2025

Interpretação

'Porch' é a oitava faixa de Ten (1991) e uma das músicas mais explicitamente políticas de um álbum de estreia que de resto foi lido, frequentemente de forma injusta, como introspectivo em vez de político. Stone Gossard escreveu a música; Vedder escreveu a letra. A canção é, nos termos mais diretos, sobre direitos reprodutivos. O narrador está respondendo à perda da autonomia corporal, e a pergunta que move os versos é a pergunta sobre quem controla as decisões que uma pessoa pode tomar sobre o próprio corpo.

Vedder confirmou essa leitura diretamente durante a apresentação da banda no Saturday Night Live em 11 de abril de 1992. Ao tocar 'Porch', escreveu 'PRO-CHOICE!!!' com caneta hidrocor no braço e ergueu pra a câmera. O gesto foi não combinado e feito ao vivo na televisão de rede aberta, no período que antecedeu Planned Parenthood v. Casey, que estava sendo julgado pela Suprema Corte naquele mesmo mês. O ato se tornou um dos momentos definidores da identidade pública inicial da banda. Vedder discutiu o gesto em PJ20 e em entrevistas posteriores; ele o enquadrou consistentemente como o único tipo de declaração que estava disposto a fazer em 1992, e uma declaração que mantém sem revisão em qualquer década posterior.

A música é uma das peças mais densamente construídas de Stone Gossard. O verso é construído sobre um único acorde com notas de passagem; a ponte é uma partida harmônica súbita que retorna imediatamente ao padrão do verso. O solo de Mike McCready no clímax da canção é, em duração, um dos solos de guitarra mais longos de Ten, e é o momento em que o argumento político se resolve em pura energia. A escalada estrutural da música, do verso pra ponte e pra o solo, é exemplo de manual da espécie de liberação por volume que definiu o som de Seattle em 1991.

Ao vivo, 'Porch' é uma das peças de execução definidoras do Pearl Jam. É a música mais associada às imagens do início dos anos 90 de Vedder escalando a estrutura da casa, balançando das traves e (em algumas ocasiões documentadas) fazendo crowd surf enquanto ainda cantava num microfone sem fio. A jam do minuto final da canção tem sido historicamente o veículo da banda pra qualquer risco físico que Vedder estivesse disposto a correr naquela noite. Em 2005, o público da banda já tinha a expectativa razoável de que 'Porch' marcaria o primeiro clímax físico do show mesmo que Vedder não escalasse mais a infraestrutura da casa.

Notas de tradução

A varanda é o ponto de observação do qual o narrador finalmente desce. 'Porch' é palavra americana específica: não é balcão nem terraço, é a área coberta que dá pra rua, lugar de quem assiste o mundo passar sem participar dele. 'Left the porch' é ato político: sair da observação confortável pra entrar no campo minado diário do qual o resto da música fala. Mantive 'varanda' em português como melhor aproximação espacial; 'alpendre' seria literal mas distante demais do leitor jovem brasileiro.

A camada política é explícita, mais explícita do que qualquer outra música de Ten. Vedder confirmou no SNL de 1992, escrevendo 'PRO-CHOICE' no braço e mostrando pra câmera durante a performance, que a música é sobre direitos reprodutivos e autonomia corporal. A pergunta 'would you hit me?' não é metáfora abstrata, é resposta à violência legalizada que o narrador está tentando antecipar. Traduzir 'hit' como 'bater' preserva a ambiguidade física.

O verso 'all the bills go by / and initiatives are taken up by the middle' é o mais denso da letra. 'Bills' aqui são projetos de lei (a leitura política é inequívoca no contexto), 'initiatives' são as proposições políticas, e 'the middle' é o centro moderado que vai sumir. Traduzir como 'todas as leis passam / e iniciativas são tomadas pelo centro / não vai mais ter centro nenhum' devolve a previsão fúnebre de polarização que a música antecipava nos anos 90 e que se mostraria certeira trinta anos depois.

O fechamento muda o gesto. 'Walk beside me' no primeiro refrão vira 'lie beside me' no segundo: a caminhada coletiva vira intimidade vulnerável. O pedido final, 'I just want to be', deixa o verbo sem complemento. Só existir, sem ser definido por nenhuma instituição que decide pelo seu corpo.

Ao vivo nos shows deste arquivo

Mais do disco Ten

Ouvir e ver as cifras no site