'Release' é a décima primeira e última faixa de Ten (1991), a canção que fecha o álbum de estreia da banda e que funcionou, ao longo de três décadas, como uma das abridoras de show mais confiáveis da banda. Stone Gossard, Jeff Ament e Mike McCready compartilham o crédito de música; Vedder escreveu a letra. A canção é o endereçamento mais direto que Vedder já fez ao seu pai biológico, o homem cuja existência ele descobriu na adolescência e cuja morte foi informada na mesma conversa. 'Alive', 'Once' e 'Footsteps' trabalham esse material como narrativa; 'Release' o trabalha como prece.
A letra é um endereçamento em segunda pessoa. O narrador está falando com um 'você' que é o pai ausente, pedindo bênção, pedindo instrução, pedindo aquela espécie de perdão que apenas os mortos podem oferecer porque não podem ser argumentados. Vedder discutiu o endereçamento da canção em PJ20 e em entrevistas anteriores do ciclo promocional de Ten em 1992. Ele enquadrou consistentemente a canção como a coisa mais pessoal que escreveu em Ten, e como a música em torno da qual Ten foi construído estruturalmente: o álbum foi sequenciado de forma que o ouvinte chegasse a 'Release' tendo já encontrado 'Alive', 'Once' e o resto do material Mamasan. A posição de fechamento é portanto o pagamento estrutural pelo álbum inteiro.
O arranjo é uma das peças mais pacientes de Stone Gossard. O verso é construído sobre um único acorde com uma linha de baixo lenta rolando; o refrão não eleva no sentido convencional mas em vez disso se abre em uma voicing mais larga que se resolve pela ponte. O solo de McCready no clímax da canção é um dos mais longos de Ten e é, segundo descrição da própria banda em PJ20, o take que mantiveram da primeira tentativa. A canção foi gravada quase como foi tocada pela primeira vez; o sentido de luto não ensaiado na gravação é uma característica, não um polimento.
Ao vivo, 'Release' tem sido abridora de set principal desde o início dos anos 1990. A construção lenta da introdução da canção é um dos momentos de abertura mais identificáveis em qualquer show do Pearl Jam, e o público frequentemente sabe que a canção está começando pela primeira nota sustentada do baixo antes de qualquer guitarra entrar. A banda tende a usar 'Release' como abridora em turnês em que querem que o show comece de um lugar de quietude em vez de explosão (o inverso de abrir com 'Go', por exemplo).
A música é uma oração. Onde 'Alive' é narrativa do impacto, 'Once' é narrativa da reação, e 'Footsteps' (que veio depois como lado B) é narrativa da captura, 'Release' é o que Vedder faria se pudesse falar diretamente com o pai biológico. Esse pai morreu sem ele saber que existia, e a música é a conversa que a morte tornou impossível. Por isso o endereçamento é em segunda pessoa direta: 'oh dear dad, can you see me now'. Não é hipótese, é chamada que sabe que não haverá resposta mas precisa ser feita.
A imagem central é frágil. 'A rocking horse of time' não é metáfora genérica, é objeto específico: o cavalinho de balanço de uma infância que o narrador não teve com aquele pai. As palavras estão montadas nele, oscilando pra frente e pra trás como a memória que não firma. Traduzi mantendo o diminutivo afetivo, 'cavalinho de balanço do tempo', porque a infantilização da imagem é proposital: o adulto que pede a bênção volta a ser criança pra poder pedi-la.
A repetição final do verbo 'release me' é o que dá título à música e o que mais exigiu cuidado. 'Release' carrega três sentidos em inglês: libertar (do peso), soltar (do controle), e perdoar (no sentido espiritual de absolver). Em português escolhi 'me liberte' porque é o único verbo que sustenta as três camadas simultaneamente. 'Me solte' seria físico demais, 'me perdoe' seria específico demais. 'Liberte' deixa o leitor decidir do que ele está sendo liberado.
A música fecha o álbum de estreia da banda não com triunfo nem com derrota, mas com um pedido. Vedder se entrega ao morto, e o morto, por não poder responder, é forçado a aceitar.
Em 3 de novembro de 2011 no Estádio do Morumbi em São Paulo, 'Release' abriu o show como a abridora lenta e pesada que a banda recorre em noites âncora de turnê. A Pearl Jam Twenty Tour era retrospectiva por design (o documentário PJ20 de Cameron Crowe tinha estreado no mês anterior), e 'Release' é o convite mais direto do catálogo de volta ao peso emocional da era Ten. O Morumbi foi a primeira data brasileira da turnê em seis anos, desde o show no Pacaembu em dezembro de 2005, e a construção lenta da canção deixou o público se assentar no show antes da curva de energia da ordem começar a subir. O bootleg captura a participação vocal sustentada na figura sem palavras final que públicos brasileiros tipicamente carregam pelo material de Ten.
Em 3 de abril de 2013 no Costanera Sur (Lollapalooza Argentina 2013) em Buenos Aires, 'Release' abriu o show como a abridora lenta e pesada que a banda vinha empregando em noites âncora de turnê desde o lançamento da canção em 1991. O público argentino estava presente na primeira apresentação propriamente dita do Pearl Jam em Buenos Aires em 18 meses (já que a turnê PJ20 tinha pulado a Argentina em 2011), e a construção lenta de 'Release' deixou a multidão de festival se assentar na arquitetura emocional da banda antes da curva de tempo da ordem começar a subir. O bootleg captura a participação vocal sustentada na figura sem palavras final que públicos sul-americanos tipicamente carregam pelo material da era Ten.
Em 6 de abril de 2013 no Parque O'Higgins (Lollapalooza Chile 2013) em Santiago, 'Release' abriu o show como a abridora lenta e pesada que a banda recorre em noites âncora de turnê. A última apresentação do Pearl Jam em Santiago tinha sido a passagem sul-americana de novembro de 1995, e o intervalo de 18 anos estabeleceu o peso emocional da canção contra a espera acumulada do público chileno. A construção lenta deixou a multidão de festival se assentar na arquitetura emocional da banda antes da curva de tempo da ordem começar a subir.
Em 11 de novembro de 2015 na Arena do Grêmio, 'Release' chegou no slot 2 do show, empregando o hino lento e pesado da era Ten que a banda recorre como âncora emocional. A colocação depois da abridora 'Pendulum' da era Lightning Bolt estabeleceu um diálogo deliberado entre catálogos de meados dos anos 2010: material mais novo primeiro, depois a fundação emocional do catálogo. O público brasileiro, presente na primeira noite da turnê no país, recebeu a figura sem palavras final com a modalidade de participação vocal sustentada que públicos sul-americanos carregam pelo material de Ten.
Em 17 de novembro de 2015 no Estádio Mané Garrincha em Brasília, 'Release' abriu o show como o hino lento da era Ten que a banda recorre como âncora emocional. Brasília foi a terceira data brasileira da turnê, e 'Release' já tinha aberto duas das três (POA foi a única abertura sem 'Release' da perna). A construção lenta deixou o público se assentar na arquitetura emocional do show antes do tempo da ordem começar a subir.
Em 21 de março de 2018 no Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro, 'Release' abriu o show como o hino lento da era Ten. A perna sul-americana de 2018 foi a primeira turnê brasileira propriamente dita da banda desde as datas latino-americanas de 2015, e 'Release' já tinha aberto vários daqueles shows de fim de perna. O cenário do Maracanã (o terceiro show da banda no Rio em treze anos) deu à construção lenta uma arquitetura emocional familiar pra o público carioca.
Em 29 de agosto de 2024 no Wrigley Field em Chicago, 'Release' abriu o show como o hino lento da era Ten que a banda recorre como âncora emocional. O Wrigley Field tinha virado, desde o primeiro show headliner da banda lá em 2013, a coisa mais próxima de um estádio de cidade natal que o Pearl Jam tinha (a conexão da banda com Chicago pela infância de Vedder lá é longamente documentada). A Dark Matter Tour de 2024 foi o primeiro grande ciclo de turnê da banda desde 2018-2022, e 'Release' abriu a primeira de duas noites no Wrigley com a função típica de âncora emocional de construção lenta da canção.