'Nothingman' é a quinta faixa de Vitalogy (1994) e a balada mais acessível num álbum que de outro modo torna acessibilidade difícil. A música é de Jeff Ament; a letra é de Vedder. A canção é o segundo single comercialmente mais bem-sucedido de Vitalogy (depois de 'Better Man') e a canção daquele álbum que permaneceu mais confiavelmente nos setlists. A letra é um retrato em terceira pessoa de um homem que perdeu uma parceira por indiferença, acumulou arrependimento sobre a perda e chegou a um estado permanente de ter perdido a vida.
A letra é uma das letras mais pacientes de Vedder. O narrador não comenta sobre a figura descrita; a canção documenta o raciocínio interior da figura e deixa o ouvinte observar tanto o arrependimento quanto o modo como o arrependimento endureceu numa postura em vez de dissolver com o tempo. Vedder discutiu a canção em entrevistas do ciclo promocional de Vitalogy (uma conversa de 1994 com a Spin é a mais citada) como uma canção sobre o gênero de desatenção que destrói uma parceria sem que ninguém na parceria perceba que aconteceu. O argumento da canção é implícito: o pior tipo de perda é a perda que você não viu chegar porque não estava prestando atenção.
O arranjo é uma das composições mais econômicas de escrita de Jeff Ament. O verso é construído sobre uma linha de baixo lenta-rolante que se resolve via refrão que se abre num acorde mais amplo. O solo de McCready no centro da canção é contido e melódico, mais na veia Mark Knopfler do que na de Hendrix. A bateria de Dave Abbruzzese é com vassourinhas em vez de baquetas, o que é incomum para ele e o que serve à arquitetura emocional da canção. O arranjo é, portanto, uma inversão deliberada da fórmula Pearl Jam: a seção rítmica está em primeiro plano, as guitarras estão contidas, e a canção não se permite escalar para aquele tipo de catarse que 'Black' ou 'Release' eventualmente entregam.
A canção foi o segundo single de Vitalogy, lançado em outubro de 1995, e atingiu o top trinta na parada Modern Rock da Billboard. Sua recepção comercial foi mais calorosa do que a do single principal do álbum ('Spin the Black Circle') porque 'Nothingman' era estruturalmente acessível de um modo que a música de meados dos anos 90 da banda tinha em grande parte se recusado a ser. O sucesso de parada da canção tornou-se, portanto, pelo próprio relato da banda, uma espécie de hit acidental: a banda não tinha projetado a canção para o rádio, mas o rádio a tomou de qualquer forma.
A balada mais acessível de Vitalogy e a peça de catálogo do álbum que permaneceu nos setlists com mais constância. A música é um retrato em terceira pessoa de um homem que perdeu o que tinha por não saber reconhecer enquanto tinha. "Once divided...nothing left to subtract" é o ponto de partida: depois que tudo foi dividido, não sobra mais nada do que subtrair.
A escolha tradutória mais delicada está em "Caught a bolt 'a lightnin'...cursed the day he let it go". O raio é a sorte rara, o amor improvável, o momento perfeito que se segura uma vez na vida. Pegou e largou, e agora amaldiçoa o dia do gesto. Em português, "Pegou um raio na mão...amaldiçoou o dia em que largou" preserva a brevidade do gesto e da culpa.
O composto "Nothingman" é central. Não é "homem nenhum", não é "ninguém", é "homem-nada", o homem que se reduziu a vazio por escolha própria. Em português, "Homem-nada" com hífen preserva o composto. A frase "Isn't it something?" repetida no refrão é ironia americana: o homem que se reduziu a nada é, paradoxalmente, alguma coisa (é um espetáculo, é caso para se comentar).
A segunda estrofe é o epílogo da relação. "Empty stares...from each corner of a shared prison cell" descreve o casal que terminou mas ainda divide o cômodo. "Um simplesmente escapa...o outro fica dentro do poço" é a separação assimétrica: ela vai embora, ele fica. O verso final, "He who forgets will be destined to remember", é a maldição da memória involuntária: quem tenta esquecer está condenado a lembrar.
Em 6 de novembro de 2011 na Praça da Apoteose, 'Nothingman' chegou no sexto slot do show como o gênero de balada da era Vitalogy que a Pearl Jam Twenty Tour deslocava quando a curva de andamento do show pedia reset emocional. A construção lenta da canção até a liberação plena do minuto final deu ao slot a forma de subida melódica paciente que a acústica do venue ao ar livre podia carregar. A performance vocal de Vedder nessa gravação sentou à frente na mixagem de um modo que a versão de estúdio espelha, e o bootleg captura a quietude sustentada mid-show do público que aquele verso exige. A função de pacing do slot foi começar a primeira diminuição deliberada de andamento do show.
Em 31 de março de 2013 no Jockey Club, 'Nothingman' chegou no décimo primeiro slot do show como aquela espécie de balada da era Vitalogy que a banda deslocava quando a curva de andamento do show pedia reset emocional. A construção lenta da canção até a liberação plena do minuto final deu ao slot o formato de subida melódica paciente que o público do festival podia carregar. O bootleg captura a quietude sustentada mid-show do público pelo verso da canção.
Em 17 de novembro de 2015 no Mané Garrincha, 'Nothingman' chegou no terceiro slot do show como a balada da era Vitalogy. A construção lenta até a liberação plena do minuto final deu ao slot aquela espécie de subida melódica paciente que a abertura deliberada do show requeria.