'Tremor Christ' é a quarta faixa do Vitalogy (1994), e uma das letras harmonicamente mais incomuns do catálogo do Pearl Jam. A música é creditada a Vedder, Stone Gossard e Jeff Ament; a letra é de Vedder. A música é construída em torno de uma progressão de acordes que recorre a vocabulário não padrão do rock, com acordes estendidos e mudanças harmônicas inesperadas que a banda raramente usou em outras partes do Vitalogy.
A letra é uma das peças mais oblíquas de Vedder no Vitalogy. O narrador se dirige a uma figura não nomeada (o 'tremor christ' do título é o destinatário, uma figura que treme com convicção religiosa ou quase religiosa) e observa a figura com aquele tipo de distância que a estranheza harmônica da música reforça. A música não editorializa sobre se a convicção da figura é admirável ou digna de pena; documenta a observação e deixa a música carregar a ambiguidade.
O arranjo é uma das peças mais pacientes do Vitalogy. O verso é construído sobre uma progressão de acordes lenta que não varia; o refrão se abre numa movimentação harmônica mais ampla que resolve pela ponte num solo de McCready. A bateria de Dave Abbruzzese na gravação (essa é uma de suas últimas faixas com a banda) é contida o tempo todo, o que se adequa à postura de observação medida da música.
Ao vivo, 'Tremor Christ' tem sido presença regular, embora não pesada, em setlists desde 1994. A música funciona melhor na segunda metade do set, onde sua estranheza harmônica pode aterrissar num público que foi aquecido o suficiente pra recebê-la. A resposta do público tende a ser silenciosa durante os versos e calorosa depois.
A letra mais surreal de Vitalogy e uma das mais surrealistas do catálogo Pearl Jam. Marinheiro à deriva, salvadora afogando-se na esteira do barco dele, anjos competindo com o diabo, oceanos pequenos com ondas grandes. Vedder fundiu termos no título inventado "Tremor Christ" (tremor + cristo) pra sinalizar que a música opera num registro onde fé e terra firme não se sustentam.
A imagem central é a desproporção. "The smallest oceans still get big, big waves" significa que pequenos meios produzem grandes consequências, e isso vale tanto para corpos d'água quanto para vidas íntimas. Os "pequenos segredos" da segunda linha do refrão são tremores que viram terremoto. Em português, "Os oceanos menores também têm ondas grandes, grandes" preserva o paralelismo estrutural.
A linha "Wounded is the organ, he left all bloodied on the shore" tem ambiguidade dupla. "Organ" pode ser órgão musical (instrumento) ou órgão anatômico (corpo). O marinheiro deixou algo ferido na praia, e a indefinição é o ponto. Em português, "Ferido o órgão, ele deixou tudo ensanguentado na praia" preserva a ambiguidade sem resolver.
O fechamento, "Puts his faith in love and tremor christ", é a fórmula da fé instável que dá título à música. "Tremor christ" não é figura conhecida, é construção de Vedder para nomear o messias que treme, o cristo que não chega, a divindade que oscila. Em português mantive "no amor e no tremor christ" sem traduzir o composto porque a estranheza é o significado.
Em 17 de novembro de 2015 no Mané Garrincha, 'Tremor Christ' chegou no oitavo slot do show como a faixa da era Vitalogy cuja progressão de acordes estruturalmente distinta e a entrega vocal em registro grave de Vedder fizeram dela uma das peças mais atmosféricas do show. A colocação em Brasília refletiu o compromisso específico da turnê em trazer à tona material do Vitalogy.