SÓ MAIS UM FÃ DE PEARL JAM

Whipping

Disco: Vitalogy (1994) · Tocada 184 vezes ao vivo pelo Pearl Jam · estreia ao vivo em 13/05/1993 · última vez em 18/09/2023

Interpretação

'Whipping' é a sexta faixa de Vitalogy (1994). A música é de Stone Gossard; a letra é de Vedder. A canção é uma das coisas mais raivosas num disco do Pearl Jam que contém muitas coisas raivosas, e uma das poucas canções no catálogo onde o alvo político é especificamente direitos reprodutivos e as mulheres que colocam seus corpos entre a lei e a escolha. A canção é uma peça-companheira de 'Porch' em Ten, escrita três anos depois, após o terreno político ter se deslocado mais.

Vitalogy foi gravada entre novembro de 1993 e abril de 1994, no período em que os assassinatos de provedores de aborto tinham começado pra valer nos Estados Unidos. Dr. David Gunn foi morto na Flórida em março de 1993; Dr. John Britton e James Barrett foram mortos na Flórida em julho de 1994; Shannon Lowney e Lee Ann Nichols foram mortas em Massachusetts em dezembro de 1994. 'Whipping' foi escrita durante essa violência crescente, e a raiva da canção é a raiva de alguém observando um movimento transformar sua retórica em assassinato. Vedder discutiu o contexto da canção numa entrevista de 1994 da Spin que rodou durante o ciclo promocional de Vitalogy.

A letra é mais abstrata do que 'Porch' mas mais focada. Onde 'Porch' se dirige à autonomia corporal como questão, 'Whipping' se dirige à reação política àquela autonomia como fato. O narrador está observando a violência de uma distância crítica e recusando ser neutro sobre ela. A canção não nomeia os provedores ou as vítimas, o que é consistente com como Vedder escreve sobre eventos específicos: a letra é uma postura em vez de um memorial.

O arranjo é uma das canções mais curtas de Vitalogy, menos de dois minutos e meio. O verso é um riff em andamento punk que não varia; o refrão é uma declaração de uma única linha que a banda repete com volume crescente. Matt Cameron ainda não tinha entrado na banda nesse ponto (Dave Abbruzzese ainda era o baterista nas sessões de Vitalogy), e a bateria de Abbruzzese em 'Whipping' está entre as mais castigadoras de seu período no Pearl Jam. A canção foi gravada rapidamente, em menos de uma dúzia de tomadas, e a aspereza da gravação é uma característica.

Notas de tradução

A música mais raivosa de Vitalogy, dirigida a direitos reprodutivos no período pós-Roe v. Wade. "They're whipping" é o gesto literal e figurado: as instituições chicoteiam mulheres que tentam controlar o próprio corpo. A música é peça-companheira de "Porch" de Ten, e o "they" não nomeado é o mesmo Estado que decide pela autonomia corporal alheia.

A primeira estrofe é um catálogo de recusa preventiva. "Don't need a helmet, got a hard, hard head / Don't need a raincoat, I'm already wet / Don't need a bandage, there's too much blood". O narrador anuncia que já passou do ponto em que proteção faria diferença. Em português, "Tenho uma cabeça dura, dura" mantém a repetição enfática que sinaliza dano cumulativo.

A escolha tradutória mais delicada está em "Why must we trust all these rusted rails?". "Rusted rails" são tanto trilhos enferrujados (estrutura coletiva apodrecida) quanto grades enferrujadas (prisão deteriorada). A pergunta retórica é sobre por que continuar confiando em instituições que claramente falharam. Em português, "trilhos enferrujados" preserva a leitura ferroviária com o subtexto carcerário.

O verso "Oh, we all got scars, they should have 'em too" é o argumento central. Todos temos cicatrizes da história, e os que decidem pelas mulheres deveriam ter cicatrizes correspondentes pra entender o que decidem. Em português, "todos temos cicatrizes, eles deviam ter também" preserva a exigência de simetria moral. A música termina com o chicote continuando, sem resolução: a violência não para porque a música termina.

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