SÓ MAIS UM FÃ DE PEARL JAM

Gigaton (2020)

Capa do disco Gigaton

Pearl Jam · 2020 · 12 faixas

Faixas

  1. Who Ever Said
  2. Superblood Wolfmoon
  3. Dance of the Clairvoyants
  4. Quick Escape
  5. Alright
  6. Seven O'Clock
  7. Never Destination
  8. Take the Long Way
  9. Buckle Up
  10. Come Then Goes
  11. Retrograde
  12. River Cross

Análise do disco

Introdução: O Contexto Histórico e a Maturação de uma Urgência

O décimo primeiro álbum de estúdio da banda norte-americana Pearl Jam, intitulado Gigaton, foi lançado mundialmente em 27 de março de 2020, rompendo o mais longo hiato de material inédito na história do grupo. O intervalo de quase sete anos que separou esta obra de seu predecessor, Lightning Bolt (2013), não foi meramente uma pausa cronológica, mas um período profundamente marcado por transformações geopolíticas, catástrofes ambientais contínuas e uma polarização social sem precedentes que reconfigurou o tecido cultural global. A transição da era de otimismo associada à administração de Barack Obama (contexto no qual Backspacer de 2009 e Lightning Bolt foram forjados) para as turbulências da administração de Donald Trump injetou na banda uma necessidade renovada de articulação política e filosófica.

O retorno da banda ao estúdio coincidiu com o alvorecer da pandemia de COVID-19, o que resultou no adiamento da massiva turnê norte-americana e conferiu ao álbum um peso profético e uma ressonância sombria em meio ao isolamento global, que forçou o cancelamento de shows em locais históricos como o Apollo Theater. Em retrospecto, a obra atua como um documento antropológico das ansiedades do início da década de 2020, capturando o Zeitgeist de uma humanidade à beira do colapso ecológico e institucional.

Musicalmente e estruturalmente, Gigaton representa um ponto de inflexão drástico na extensa discografia do grupo. Longe de ser um retorno nostálgico e seguro aos dias de glória comercial do grunge, estabelecidos por álbuns como Ten (1991), Vs. (1993) ou Vitalogy (1994), a obra consolida o Pearl Jam como uma entidade de rock do século XXI, dotada de uma consciência cívica hiperativa e um propósito estético renovado. A transição da produção de longa data, antes liderada pelo veterano Brendan O'Brien, para o coprodutor Josh Evans sublinha de maneira indelével essa busca por uma nova arquitetura sônica. Evans incentivou a banda a abandonar suas zonas de conforto, incorporando texturas eletrônicas sutis, baterias programadas e experimentações modulares antes atípicas em seu repertório clássico. O resultado é uma justaposição complexa entre a urgência punk visceral, atmosferas progressivas meticulosamente construídas e reflexões acústicas maduras que exigem múltiplas audições para uma decodificação completa.

A análise aprofundada de Gigaton revela um manifesto multifacetado: um diário de viagem através de um meio ambiente ameaçado, um comentário mordaz e historicamente embasado sobre a política norte-americana e uma meditação filosófica sobre a mortalidade, o luto, a esperança e a resiliência humana. A presença de múltiplas vozes criativas, com quase todos os membros da banda contribuindo ativamente com letras e arranjos melódicos, reflete a evolução do grupo em direção a uma democracia composicional plena, afastando-se do modelo onde Eddie Vedder concentrava a totalidade da carga literária.

A Estética Visual, Materialidade e as Fundações Temáticas

Antes mesmo da primeira nota musical ser executada, Gigaton comunica seu ethos de maneira agressiva e poética através de sua curadoria visual e conceitual. A nomenclatura do álbum é, em si, um alerta científico. O título refere-se à unidade de medida (gigatonelada) frequentemente utilizada por climatologistas para quantificar a massa colossal de derretimento das calotas polares e das plataformas de gelo, enraizando o projeto irrevogavelmente no debate sobre a crise climática global. A arte da capa corrobora essa urgência de forma visceral: trata-se de uma fotografia capturada pelo aclamado biólogo marinho e fotógrafo da National Geographic, Paul Nicklen, exibindo o exato momento em que uma geleira colossal derrama água no oceano, uma imagem literal e metafórica da efemeridade planetária e do tempo que se esgota.

Esta iconografia ambiental estende-se meticulosamente por todo o encarte do álbum físico. O material gráfico de 16 páginas atua como um catálogo visual de desastres e maravilhas naturais, incluindo fotografias de narvais, um vulcão em erupção expelindo cinzas, uma lua cheia texturizada, auroras boreais serpenteando pelo céu, um asteroide na noite, incêndios florestais devastadores, fumaça de complexos industriais e formações de tempestades. Essas imagens foram compiladas a partir do trabalho de Nicklen, do acervo de imagens da NASA e de agências fotográficas como Getty Images e Shutterstock, além de fotografias tiradas pelo próprio baixista Jeff Ament, que possui formação acadêmica em design gráfico.

A direção de arte global e o conceito labiríntico do álbum são creditados a Jerome Turner e Al Nostreet, pseudônimos duradouros e recorrentes adotados por Eddie Vedder e Jeff Ament, respectivamente, derivados primordialmente de seus nomes do meio. Juntamente com o colaborador de longa data Joe Spix (que, em colaboração com Ament, foi laureado com um prêmio Grammy pelo design gráfico de uma compilação de Chris Cornell), Ament e Vedder projetaram um encarte que funciona quase como uma exibição de galeria de arte focada na devastação e sublimidade do Antropoceno.

Adicionalmente, o compromisso tátil e visceral de Eddie Vedder com a palavra escrita e a materialidade da literatura é evidenciado por seu crédito técnico como "datilógrafo oficial" do álbum. Mantendo uma tradição estabelecida décadas antes (como visto no encarte do álbum Binaural de 2000), Vedder utilizou uma máquina de escrever mecânica antiga para redigir as letras e definir a tipografia do álbum. Para Gigaton, a máquina selecionada foi uma Torpedo modelo 18B de 1961-62, um aceno metalinguístico à autenticidade orgânica e à permanência da tinta sobre o papel em um mundo progressivamente volatilizado pela digitalização. A máquina de escrever não é apenas um artifício gráfico; em trabalhos anteriores e contemporâneos da banda (como nas faixas "Writer's Block" e "Can't Deny Me"), ela chegou a ser creditada como um instrumento percussivo, sublinhando a fusão literário-musical da banda.

A iconografia central do projeto é reforçada de maneira contundente por um logotipo inédito criado por Vedder e a empresa de design Ames Bros (cofundada por Barry Ament, irmão do baixista). No logotipo, as letras que formam o nome Pearl Jam estão embutidas no traçado de um eletrocardiograma (EKG) pulsante em um vermelho vibrante. Essa representação visual sintetiza graficamente o tema dual que governa o álbum: a falência sistêmica do planeta contraposta aos batimentos cardíacos frenéticos e remanescentes da humanidade, simbolizando a tese de que, enquanto houver pulso, a resistência ao niilismo é um imperativo moral.

O envolvimento do Pearl Jam com as causas abordadas transcende a retórica artística superficial. O encarte do álbum atua como uma plataforma de ativismo tangível, listando explicitamente os websites de organizações não governamentais como Sealegacy.org e Only.one, ambas dedicadas à vitalização dos oceanos e à mitigação dos impactos das mudanças climáticas, ancorando a obra poética em ações pragmáticas de preservação ambiental.

Ficha Técnica

| # | Faixa | Letra | Música | Instrumentação anômala / convidados | Duração | |---|---|---|---|---|---| | 1 | Who Ever Said | Eddie Vedder | Eddie Vedder | Guitarras lo-fi na intro | 5:11 | | 2 | Superblood Wolfmoon | Eddie Vedder | Eddie Vedder | (sem convidados) | 3:49 | | 3 | Dance of the Clairvoyants | Eddie Vedder | Pearl Jam (todos) | Bateria programada, sintetizadores | 4:25 | | 4 | Quick Escape | Eddie Vedder | Jeff Ament | Teclados (Brendan O'Brien) | 4:46 | | 5 | Alright | Jeff Ament | Jeff Ament | Kalimba | 3:43 | | 6 | Seven O'Clock | Eddie Vedder | Pearl Jam (todos) | Teclados modulares | 6:14 | | 7 | Never Destination | Eddie Vedder | Eddie Vedder | (sem convidados) | 4:17 | | 8 | Take The Long Way | Matt Cameron | Matt Cameron | Vocais de apoio (Megan Grandall) | 3:41 | | 9 | Buckle Up | Stone Gossard | Stone Gossard | Teclados (Josh Evans) | 3:36 | | 10 | Comes Then Goes | Eddie Vedder | Eddie Vedder | Violão acústico solo | 6:02 | | 11 | Retrograde | Eddie Vedder | Mike McCready | Teclados (Brendan O'Brien) | 5:22 | | 12 | River Cross | Eddie Vedder | Eddie Vedder | Órgão de bomba de 1850, E-bow | 5:54 |

Análise Intertextual e Literária Faixa a Faixa

A riqueza antropológica de Gigaton não reside primariamente em suas texturas e paisagens sonoras expansivas, mas na extraordinária densidade intertextual e literária de suas letras. O álbum atua como um compêndio de citações não creditadas, homenagens literárias codificadas e comentários políticos incisivos que demandam uma hermenêutica rigorosa para sua total assimilação.

1. Who Ever Said

A faixa de abertura atua como a ignição do motor narrativo do álbum. Sonoramente, a música estabelece sua premissa por meio de um artifício de engenharia de áudio: o engenheiro de mixagem Tim Palmer revelou que a introdução apresenta uma guitarra solitária processada através de um filtro de equalização para soar intencionalmente "pequena e semelhante a um rádio" (lo-fi). Esta escolha técnica cria um isolamento claustrofóbico que é violentamente rompido quando o baixo e a bateria entram com força total, simbolizando o despertar de uma mensagem previamente sufocada pelas distorções do mundo moderno.

Liricamente, Eddie Vedder introduz de imediato a tríade temática recorrente do álbum, baseada na iconografia de "mar, lua e estrelas", ilustrada de forma pungente pelo verso "blinking stars beneath you roam". O cerne filosófico da canção é uma exploração sobre a imperfeição humana como o único caminho para a sabedoria. Vedder canta que "All the answers will be found / In the mistakes that we have made" (Todas as respostas serão encontradas nos erros que cometemos), sugerindo que a progressão espiritual requer uma aceitação das falhas sistêmicas do passado. A música também introduz o tema duradouro do coração ferido ("Home is where... the broken heart is"), retratando a dor como o domicílio verdadeiro da condição humana.

Do ponto de vista das referências intertextuais, a música estabelece um diálogo histórico fascinante com os alicerces do rock and roll clássico. O refrão central, exclamado repetidamente por Vedder, postula: "Whoever said it's all been said / Gave up on satisfaction" (Quem quer que tenha dito que tudo já foi dito / Desistiu da satisfação). A comunidade crítica e os estudiosos da banda identificaram esta passagem como uma alusão e citação literária direta à icônica banda britânica The Rolling Stones e ao seu hino imortal "(I Can't Get No) Satisfaction". Em entrevistas, o guitarrista Stone Gossard confirmou explicitamente essa interpretação, descrevendo a estrutura rítmica e a letra do refrão como um tributo reverencial aos The Rolling Stones. Gossard revelou que a música originou-se de um conjunto de fitas demo gravadas unicamente por Vedder, e que, durante os ensaios de estúdio, a execução da faixa evocou um imenso poder cinético, tornando-se uma das canções que ele mais ansiava por executar perante o público.

Além da homenagem musical, a citação carrega um peso filosófico formidável. Ao rejeitar a premissa pós-moderna de que "tudo já foi dito" e que a inovação artística esgotou-se, Vedder contesta abertamente o niilismo e a redundância da arte contemporânea. É uma negação da fadiga existencial; a letra atua como Vedder dando permissão a si mesmo e à sua audiência para se libertarem do peso da crítica cínica e continuarem em busca de significado e, ultimamente, de satisfação lírica e moral. A recusa em ceder à desesperança é cravada nos momentos finais com a afirmação categórica: "But I won't give up... No, I won't give up. On satisfaction".

2. Superblood Wolfmoon

Mantendo o ímpeto e a energia propulsora gerada pela faixa de abertura, "Superblood Wolfmoon" é frequentemente caracterizada pela crítica especializada como uma amostra robusta de "grunge atualizado". A faixa também floresceu a partir da mesma sessão solitária de demos pré-gravadas por Vedder que gerou o esqueleto melódico de "Who Ever Said" e "Never Destination", demonstrando um período de alta fertilidade composicional isolada do vocalista antes da banda convergir no estúdio.

A escolha idiossincrática do título evidencia o fascínio contínuo de Vedder pela astronomia e pelos ciclos naturais imutáveis. O título aglutina termos utilizados para descrever fenômenos celestes simultâneos: uma superlua, uma lua de sangue (eclipse lunar total que confere uma cor avermelhada ao satélite) e uma lua de lobo (a primeira lua cheia de janeiro). Enquanto os fenômenos orbitais operam indiferentes ao caos terrestre, a letra adota um tom encorajador e diretivo. A mensagem literária e emocional principal da faixa é um imperativo categórico contra a apatia social e a depressão endêmica, cristalizada no comando verbal: "Don't allow for hopelessness" (Não dê margem para a falta de esperança). Musicalmente impulsionada por riffs velozes e arranjos urgentes, a canção atua como a prova de que a agressividade sonora clássica do Pearl Jam pode, e frequentemente deve, coexistir com narrativas de resistência otimista frente à desolação.

3. Dance of the Clairvoyants

Servindo como o primeiro cartão de visitas e o single de estreia do projeto, "Dance of the Clairvoyants" foi recebida com profundo choque, ceticismo inicial e, posteriormente, aclamação pela sua audaciosa desconstrução da métrica clássica e da estética tradicional associada ao Pearl Jam. Historicamente, a banda tem o costume de desafiar seu público com singles primários complexos, mas esta faixa levou a experimentação a novos limiares. A arquitetura da música exibe pesadas influências da art-rock e da cena pós-punk oitentista, sendo universalmente comparada por críticos e ouvintes à sonoridade polirrítmica e estética da banda Talking Heads, impulsionada pelos tiques vocais idiossincráticos de Vedder, que emularam abertamente o estilo de David Byrne.

O processo de composição da faixa é um marco de cooperação interna. Esta é a única canção do repertório de Gigaton em que todos os cinco membros da banda (Vedder, Gossard, Ament, McCready, Cameron) recebem igual crédito autoral pela criação da música, consubstanciando o ethos do "esforço de equipe". A engenharia da canção incorporou elementos outrora considerados blasfemos para puristas da cena de Seattle, notavelmente o uso extensivo de baterias sintéticas programadas e sintetizadores de baixo.

A lírica redigida por Vedder é assombrada por um ar de premonição quase sobrenatural, fazendo jus ao título clarividente da faixa. Ao entoar de forma declamatória o verso "we are stuck in our boxes, windows open no more" (estamos presos em nossas caixas, janelas não abrem mais), a banda desenhou com precisão perturbadora o confinamento social e a quarentena global que dominariam a civilização devido à pandemia da COVID-19, uma realidade que se imporia meras semanas após o lançamento comercial da música. A profundidade do texto reside em sua diretriz de enfrentamento: a canção reflete as inúmeras barreiras sistêmicas erguidas ao redor do indivíduo, mas exige que, mesmo confinados ao desespero, os cidadãos busquem mecanismos lúdicos de transcendência espiritual, sugerindo a metáfora de "dançar um pouco" por dentro, independentemente das constrições externas.

4. Quick Escape

"Quick Escape" eleva-se rapidamente como uma das composições de maior peso intertextual, sofisticação literária e engajamento sociopolítico de toda a trajetória do grupo. Escrita musicalmente pelo baixista Jeff Ament, que contribuiu com o groove de baixo difuso e um loop de bateria sintética matador, e aprimorada de forma crucial pela presença do histórico produtor Brendan O'Brien, que forneceu as camas de teclados eletrônicos pontiagudos da faixa, a música é uma obra-prima de tensão e liberação sônica. Sonoramente, a faixa culmina em um dos espetáculos mais catárticos da banda: aproximadamente noventa segundos contínuos de solos de guitarra abrasivos e virtuosos por Mike McCready, simulando o barulho ensurdecedor dos motores de propulsão de uma nave espacial deixando a atmosfera terrestre.

No âmbito temático, a canção narra uma ficção científica brutal, descrevendo uma viagem frenética e uma fuga interplanetária desesperada rumo a Marte, impulsionada pelo esgotamento final e irreversível do ecossistema e dos recursos da Terra. O diário de viagem serve como uma elegia à beleza frágil do planeta abandonado, com Vedder recordando melancolicamente "os velhos tempos de grama verde, céu e vinho tinto".

A profundidade intertextual da letra atua em múltiplas frentes. Em primeiro lugar, ela abriga alusões veneráveis a lendas formadoras do rock. Vedder cita nominalmente a banda Queen no verso "Queen cranking on the blaster / and Mercury did rise", e imediatamente após, projeta uma homenagem espacial à banda Led Zeppelin, mencionando que em sua busca errante eles viajaram por "Kashmir", uma citação direta à majestosa canção britânica.

Em segundo lugar, e de importância literária primordial para o entendimento da faixa, "Quick Escape" apresenta uma citação e invocação explícita do romancista Jack Kerouac, a figura central e o arauto da Geração Beat literária dos anos 1950. Durante a narrativa da fuga caótica, Vedder recita: "Sleep sack, a bivouac and Kerouac sense of time" (Saco de dormir, um acampamento temporário e o senso de tempo de Kerouac). A utilização do substantivo "Kerouac" como adjetivo temporal não é um mero artifício de rima, mas o resgate de uma filosofia comportamental inteira. Em obras seminais como On the Road (Pé na Estrada) e The Subterraneans (Os Subterrâneos), Kerouac defendeu uma urgência cinética ininterrupta, uma movimentação improvisada, caótica e veloz que operava à margem da cadência mecanicista da sociedade burguesa pós-guerra. Ao invocar esse específico "senso de tempo", o Pearl Jam alinha a ansiedade distópica do apocalipse ecológico com a histórica busca beatnik por libertação e transcendência através da estrada, neste caso, uma estrada cósmica.

Além do escapismo ambiental, a faixa atua como um ataque frontal e impiedoso à governança institucional contemporânea. A necessidade desesperada de fuga não é motivada exclusivamente pelo aumento das temperaturas globais, mas também pela contaminação política insuportável. O diário de viagem geográfico inclui Marrocos e Marrakech, desembocando em uma condenação direta a Donald Trump. Vedder canta sobre a vastidão absurda do globo pela qual tiveram que peregrinar para "encontrar um lugar que Trump ainda não tivesse fodido" ("The lengths we had to go to then / To find a place Trump hadn't fucked up yet"). Trata-se de uma anomalia na poética frequentemente codificada de Vedder; citar o presidente norte-americano pelo sobrenome de forma tão crua retira a canção do campo da ficção científica etérea e a ancora no ressentimento tangível da resistência política contemporânea. Em entrevistas subsequentes, Vedder elucidaria a frustração avassaladora com os rumos autoritários do poder executivo americano, justificando a agressividade inusitada dos versos.

5. Alright

Servindo como o contrapeso atmosférico perfeito ao caos furioso de "Quick Escape", a quinta canção do registro age como um fechamento contemplativo para a "primeira metade" metafórica do álbum. Intitulada "Alright", a obra é uma exploração melódica concebida inteiramente por Jeff Ament, que assumiu tanto a responsabilidade pelas composições harmônicas quanto pela totalidade das letras poéticas.

Sob o escopo da produção criativa, a faixa destaca-se pelo despojamento deliberado de sua instrumentação. Afastando-se dos alicerces tradicionais de guitarra elétrica super-saturada do grupo, "Alright" baseia sua sonoridade em elementos mínimos e percussões eletrônicas discretas, pontuadas primariamente pelos timbres etéreos e ressonantes de uma kalimba, um instrumento rítmico idiofone de origem tradicional africana. A escolha de instrumentos exóticos sublinha a aura solitária da canção.

Liricamente, a faixa é um profundo exame da introversão, da autoproteção e da retração estratégica diante da sobrecarga informacional e das hostilidades do mundo moderno. A narrativa de Ament aconselha a preservação silenciosa do livre-arbítrio interno em vez do confronto vocal exaustivo. O dogma emocional da faixa é encapsulado e repetido na tese: "If your heart still beats free keep it for yourself" (Se o seu coração ainda bate livremente, guarde-o para si mesmo). Diferente da extroversão rebelde associada ao ativismo rock, Ament propõe que a recusa mansa à participação social não é necessariamente um ato de rendição, mas um mecanismo indispensável de sobrevivência psicológica, uma permissão para "estar bem" (alright) dentro do próprio silêncio e solidão enclausurada.

6. Seven O'Clock

Compondo o epicentro nevrálgico, lírico e filosófico de Gigaton, "Seven O'Clock" atinge os patamares de uma composição épica com mais de seis minutos de duração, exigindo paciência e dissecação minuciosa. A canção teve origens não-ortodoxas; de acordo com uma entrevista concedida pelo coprodutor Josh Evans ao repórter Jonathan Cohen da Variety, a faixa não foi gravada em um take sequencial clássico, mas foi um intrincado quebra-cabeça de estúdio. Evans relatou que a canção foi montada a partir de excertos díspares extraídos de uma sessão de improvisação (jam session) gravada inicialmente em 2017. Sobre essas bases, o produtor arquitetou vastas camadas de novos elementos melódicos ao longo do tempo, transformando os rascunhos em um monólito sonoro multifacetado. A crítica tem posicionado o resultado estético destas manipulações como um feito monumental de ambição sônica comparável à tapeçaria atmosférica, psicodélica e rodopiante comumente associada ao Pink Floyd, enquanto a cadência poética e de declamação barítona de Vedder tem sido largamente equiparada à tradição narrativa densa de Bruce Springsteen.

A relevância de "Seven O'Clock" expande-se através da sua acuidade literária em relação ao colapso ambiental e, ainda mais notavelmente, o seu audacioso enquadramento da história indígena como espelho da degradação política moderna. Em meio aos cenários descritos onde "oceanos sobem com as ondas", Vedder, que admitiu em entrevistas estar "muito orgulhoso" destas letras e da performance do inusitado falsete na canção, arquiteta um ataque semiótico magistral ao presidente Donald Trump.

Ao invés de adotar a indignação vazia, a poética de Vedder resgata as colossais figuras da resistência e do martírio das nações nativo-americanas do século XIX: Touro Sentado (Sitting Bull), grande líder espiritual e chefe sagrado dos Hunkpapa Lakota, e Cavalo Louco (Crazy Horse), um dos mais reverenciados estrategistas e guerreiros Oglala Lakota, famosos por sua histórica resistência contra o avanço brutal e as políticas de extermínio do governo federal estadunidense no território oeste. A estrofe traça um doloroso contraste valorativo: "Sitting Bull and Crazy Horse come forged the north and west / Then there's Sitting Bullshit as our sitting president" (Touro Sentado e Cavalo Louco forjaram o norte e o oeste / Depois temos 'Besteira Sentada' como nosso presidente em exercício). O exímio jogo de palavras, manipulando a reverência de "Sitting Bull" para a injúria escatológica "Sitting Bullshit" em referência ao estadista na cadeira ("sitting president"), reflete o absurdo patético da liderança atual: um homem sem substância ou virtude ocupando uma posição forjada através do heroísmo trágico e derramamento de sangue do passado. O poema prossegue diagnosticando o governante preso numa "tragédia de erros" narcisista ("Talking to his mirror"), disparando socos ao ar com uma mente esvaziada ("Fading lights, lost eloquence").

Contudo, a função primordial do Pearl Jam nunca se esgota no cinismo ou no fatalismo catártico. Após a pesada denúncia e das ponderações iniciais matutinas ("Sete horas da manhã, recebi uma mensagem de longe... não é tempo de hesitação"), Vedder infunde uma lufada de determinação tática. Na busca pela manutenção da sanidade em meio às enchentes, literais e informacionais, a música instrui a ação pragmática como método de sobrevivência. Através da poderosa metáfora oceânica cantada intensamente, Vedder oferece o seu conselho vital aos ouvintes: "swim sideways from this undertow and do not be deterred" (nade lateralmente desta correnteza traiçoeira e não se deixe deter). Ao instruir o público a adotar o único método físico e científico eficaz de se salvar de uma perigosa correnteza de retorno marítima (nadar paralelamente à costa em vez de lutar diretamente contra a força da maré), a banda postula um manual filosófico: a resistência eficaz à loucura institucional não requer confronto destrutivo, mas adaptabilidade inteligente e resiliência teimosa.

Tabela de Citações Intertextuais

| Faixa | Referência / Citação | Origem / Autor | Temática associada | |---|---|---|---| | Who Ever Said | "(I Can't Get No) Satisfaction" | The Rolling Stones | Rejeição da fadiga artística e complacência | | Quick Escape | "Kerouac sense of time" | Jack Kerouac (Geração Beat) | Urgência, instinto de fuga e movimentação cinética | | Quick Escape | "Mercury did rise" | Freddie Mercury (Queen) | Homenagem aos deuses da expansão do rock | | Quick Escape | "Kashmir" | Led Zeppelin | Geografia exótica e odisseias de escala global | | Quick Escape | Donald Trump | Política norte-americana | Frustração extrema e a degradação internacional | | Seven O'Clock | Sitting Bull (Touro Sentado) | Líder Hunkpapa Lakota | Símbolo irrefutável de dignidade de liderança | | Seven O'Clock | Crazy Horse (Cavalo Louco) | Guerreiro Oglala Lakota | Resistência histórica contra governanças abusivas | | Seven O'Clock | "Sitting Bullshit" | Donald Trump | Decadência moral e trocadilho subversivo do cargo | | Never Destination | "Bob Honey" | Sean Penn (romancista/ator) | Violência, desilusão, absurdo e fratura social contemporânea |

7. Never Destination

Rompendo abruptamente os devaneios progressivos da faixa anterior, "Never Destination" atinge os alto-falantes com guitarras altamente distorcidas e uma propulsão punk que evoca imediatamente o instinto selvagem e os arranjos rasgados da era do reverenciado disco Vitalogy de 1994. Originada da mesma prole de fitas demos criadas exclusivamente por Vedder (que assina música e letras) que alimentaram o restante do álbum, a canção é um ataque sônico adornado de riffs frenéticos e solos de guitarra justos descritos por críticos como ferozmente viscerais. A técnica vocal adotada retorna a uma cadência rosnada e gaguejante ("snarling vocals"), imitando esteticamente a vertigem contínua que o texto narrativo pretende comunicar.

Dentro deste frenesi musical acelerado, "Never Destination" abriga o componente literário mais excêntrico de toda a era Gigaton, inserindo uma alusão bibliográfica muito particular da literatura ficcional estadunidense recente. Na letra da música, a identidade do vocalista encontra-se explicitamente com a de um personagem inusitado, através do nome-check direto do "Sr. Bob Honey".

Quem é Bob Honey e por que este referencial é injetado no tecido da música? "Bob Honey" é o assassino sociopata e protagonista central de uma obscura série de livros de ficção literária (cujo primeiro volume, Bob Honey Who Just Do Stuff, foi publicado de forma altamente polarizadora no ano de 2018) cujo autor intelectual é o multipremiado ator de cinema e amigo íntimo de Vedder, Sean Penn. O enredo do livro de Penn retrata um indivíduo absurdamente alienado, um vendedor de fossas sépticas e assassino contratado nas horas vagas pelo governo americano, cuja arma de escolha para exterminar cidadãos idosos que supostamente drenam os recursos do estado é um enorme martelo colorido. A obra de Penn obteve recepção crítica brutal e controvérsia massiva nas esferas intelectuais, com certas publicações referindo-se a ela com desdém literário como sendo permeada por visões misóginas e falhas estruturais massivas, almejando ao título infame de pior livro da década. No entanto, a fascinação e reverência de Vedder por invocar um protagonista enredado no absurdo, no colapso sistêmico americano e no horror governamental de um mundo sem significado serve como o suporte ideológico indispensável para transmitir o senso desvairado e caótico que infesta a "estrada sem destino" (Never Destination) onde a civilização moderna trafega cega e aterrorizada.

8. Take The Long Way

No decorrer da maturação estrutural da banda ao longo de quase trinta anos, o baterista Matt Cameron tem conquistado espaço valioso não meramente como base rítmica, mas como força motriz na composição do Pearl Jam. Em "Take The Long Way", Cameron cimenta seu lugar no disco exercendo jurisdição autoral total, escrevendo simultaneamente a estrutura harmônica, as linhas de guitarra afiadas e toda a complexidade poética. Sonoramente agressiva e intrincada, a canção demonstra com esplendor as idiossincrasias instrumentais de Cameron e seu background inegável das assinaturas complexas consolidadas durante seu histórico duradouro como o engenheiro rítmico principal do Soundgarden. Conforme atestado em vídeos instrucionais de bateria (Drumeo), a música rompe a ortodoxia clássica do rock (frequentemente estagnado no tempo de 4/4), desafiando a banda e as fundações rítmicas do ouvinte através da implementação astuta e polirrítmica do compasso tortuoso de 7/8 em seus riffs.

Este ímpeto exploratório foi vocalizado francamente pelo companheiro de banda e guitarrista base Stone Gossard, que pontuou, em entrevistas detalhadas conduzidas pelo site PearlJamOnline, que cada nova música conceitual fornecida por Matt Cameron invariavelmente estabelece um imenso "desafio para o resto da banda", elevando o teto técnico do quinteto consideravelmente e exigindo concentração extra de ensaio para ser dominada.

Além do quebra-cabeça de tempo de compasso da composição, a música desfruta de um marco de produção verdadeiramente histórico nos arquivos monossilábicos e sagrados da identidade do grupo. Pela primeira vez registrada nos trinta anos da banda, "Take The Long Way" credita uma mulher e uma artista puramente externa para atuar formalmente em vocais de apoio fundamentais ao longo da execução da faixa. O crédito foi outorgado à vocalista Megan Grandall, membro fundadora do renomado duo nativo do cenário musical independente de Seattle, Lemolo. Os vocais femininos fantasmagóricos de Grandall e os andamentos labirínticos da canção foram concretizados durante isoladas sessões sonoras gravadas no estúdio musical Ballard Baitshop, propriedade do produtor Nathan Yaccino, antigo estaleiro costeiro convertido em abrigo musical em Seattle.

Em relação à temática literária exposta por Cameron, os versos focam nas tribulações interpessoais atreladas à ausência cronológica ("I always take the long way / It leads me back to you"), atuando metaforicamente sobre os desvios complexos, "os caminhos longos" e errantes, necessários no amadurecimento humano e na superação das fragilidades, em contraste flagrante com as trajetórias lineares ilusórias.

9. Buckle Up

Tornando-se rapidamente a singularidade sônica mais polarizadora dentro do vasto espectro expansivo e majoritariamente agressivo do álbum, "Buckle Up" ("Apertem os cintos") permanece como a única obra puramente concebida, letra e música, por trás dos intelectos rítmicos fundacionais do guitarrista Stone Gossard. O DNA de origem da faixa remonta aos rincões da América do Sul. Segundo os relatos pormenorizados em entrevistas concedidas por Gossard, o esqueleto harmônico excêntrico deste arranjo foi redigido acusticamente nos bastidores do monumental concerto que o Pearl Jam realizou na arena em Santiago, capital do Chile, na temporada de turnês de 2018. No período destas sessões não se vislumbrava um projeto completo do disco e o próprio Stone alimentava profundas incertezas e ressalvas se o arranjo peculiar se fundiria esteticamente com o panorama musical futuro do Pearl Jam. O envio da fita para os arranjos experimentais testava conscientemente, de acordo com as falas de Gossard, o "alargamento dos horizontes musicais da banda", demandando que seus pares de banda acomodassem estruturas não convencionais do tipo "canções de ninar" obscuras ao disco de rock moderno.

O produtor Joshua Evans deixou suas impressões digitais inconfundíveis nesta faixa macabra utilizando sintetizadores e teclados melancólicos envolventes, preenchendo as ranhuras minimalistas das guitarras trêmulas que marcam o andamento da música (registros que denotam semelhança tímbrica com artifícios giratórios como o alto-falante Leslie, que confere tons flutuantes de sirene).

O título incita à extrema atenção. No nível textual, "Buckle Up" elabora-se através das confissões de conformismo frente aos horrores incontornáveis, às doenças trágicas incontroláveis da sociedade humana e as brutalidades perpetradas, instando à obediência irônica de simplesmente "apertar o cinto de segurança" perante a colisão eminente e as atrocidades que o veículo existencial fatalmente enfrentará; é uma música permeada por sangue, falências e curativos estéreis. Gossard refletiu o orgulho absoluto diante desta anomalia e confessou abertamente que "se esta fosse a última canção que ele já escrevera na história para o Pearl Jam, ele estaria mais do que profundamente satisfeito com o seu legado".

10. Comes Then Goes

Esta faixa transcende os domínios mercadológicos rigorosos de uma música pop convencional ou do alt-rock moderno para se sedimentar como uma das elegias memoriais acústicas mais cruas e lancinantes gravadas em toda a longa sobrevida dos veteranos de Seattle. Executada e documentada inteiramente na intimidade assombrosa de uma modalidade de solo acústico primário, "Comes Then Goes" foi capturada no ambiente sagrado do estúdio logo em sua primeira tomada improvisada ("first take") por Vedder. Consequentemente, foi despida deliberadamente de baterias opressoras, linhas volumosas de baixo elétrico ou orquestrações espessas, expondo intencionalmente a aspereza tátil orgânica atrelada ao envelhecimento natural das pregas vocais do vocalista. Avaliações sonoras apontaram a nítida invocação estilística ao ataque vigoroso e impetuoso associado às dedilhadas acústicas propulsivas do lenda britânica Pete Townshend (líder fundador do The Who) na gênese instrumental deste tributo.

O tema da composição centra-se indiscutivelmente nos domínios do pesar, no encerramento obscuro da mortalidade e na reflexão paralisante sobre a falência trágica da conexão afetiva através da fumaça incontrolável do vício e da separação existencial. Embora o cantor, resguardando sagradamente a sua reserva literária pessoal, jamais confirme explicitamente por meios textuais documentados o alvo direto de seu pranto elegíaco, não resta absolutamente nenhum indício contraditório, aos olhos da maciça unanimidade literária, do intenso ativismo da comunidade musical, da crítica do rock e das análises semióticas fervorosas, de que a obra magna "Comes Then Goes" ressoa exclusivamente e indubitavelmente como o tributo majestoso, doloroso e inegável em resposta ao desaparecimento fulminante por suicídio de seu camarada fraternal, o reverenciado vocalista do Soundgarden e Audioslave, Chris Cornell, em 2017.

A confissão visceral de estilhaçamento emocional desolador gravada a fogo nos versos do meio musical: "High or low… where'd you go? Can I find a glimpse of my friend, don't know when one of us left the other behind?" (Nas alturas ou nas profundezas... para onde você foi? Posso encontrar um vislumbre do meu amigo, não sei em que momento um de nós acabou deixando o outro tragicamente para trás?). Tais linhas dissecam cirurgicamente não apenas o isolamento excruciante inato da dor individual que o luto precipita, mas a brutal culpa do sobrevivente que irremediavelmente acossou e segue acompanhando incansavelmente Vedder e a vanguarda remanescente dos veteranos arquitetos musicais de Seattle. A declaração lírica implorativa lançada dolorosamente, atestando "We could all use a savior from human behavior" (Todos nós inegavelmente carecemos de encontrar um tipo de salvador do próprio comportamento humano autodestrutivo) consubstancia o libelo filosófico final e definitivo sobre a derrocada mental na tragédia contemporânea. Nos palcos de 2024, após improvisos emotivos intensos sobre a memória do Soundgarden, a execução repetida a três vozes isoladas do nome da faixa em forma de ritual expiou as dúvidas residuais perante as teorias formuladas.

11. Retrograde

Surgindo a partir das melodias sonhadoras fundamentadas pelo virtuoso da guitarra Mike McCready, acompanhadas pelo gênio literário onipresente de Vedder, "Retrograde" ergue-se grandiosa e pacientemente e atua de maneira eficaz como o pico angustiante do cataclismo científico que encharca as advertências estruturais climáticas contínuas dissecadas incansavelmente na plataforma de Gigaton. Do ponto de vista técnico de engenharia orquestrada, o tecido harmônico exibe amplas guitarras atmosféricas carregadas de reverbs espaciais inebriantes, substancialmente apoiadas, complementadas e polidas pelas densas texturas tonais injetadas por Brendan O'Brien através do escopo analógico dos seus teclados de estúdio, gerando inequivocamente um deslumbrante clímax dramático sônico avaliado por devotos inveterados do catálogo da banda como possuidor de "um dos trechos épicos musicais finais de encerramento mais estelares de todos os tempos nas criações de Pearl Jam".

A poética foca em narrar abertamente, destituída de quaisquer disfarces, os impactos mortíferos, incontroláveis e imensuráveis resultantes das consequências atreladas ao implacável fenômeno de catástrofe decorrente do superaquecimento global contemporâneo. Com o verso incisivo, "Seven seas are raising / Forever futures fading out" (Os sete oceanos estão subindo suas marés irremediavelmente / Futuros eternos estão agora inevitavelmente desaparecendo), os letristas agem transmutando jargões estatísticos sombrios e laudos técnicos científicos insossos em autêntico puro terror existencial aterrorizante para a imaginação coletiva. Não obstante, frente à desintegração total ("Retrograde", a estagnação perante a inércia destrutiva evolutiva do mundo), a canção postula o fio de alento em sua linha melódica mais afetuosa: o constante instinto perene pela busca da conjunção benéfica estelar natural da sobrevivência vital sugerindo confiantemente aos céus que, contra os prognósticos desfavoráveis terrenos, as "estrelas fatalmente se alinham novamente quando as circunstâncias cósmicas finalmente passarem a ser superiores do que o trágico estado que enfrentamos bem agora" ("stars align when things are better than right now").

12. River Cross

Como ápice sagrado final, a monumental catarse definitiva e litúrgica atinge sua resolução grandiosa perante o último testamento melancólico e pacífico concedido à humanidade na forma da formidável "River Cross". Esta composição constitui de imediato um dos capítulos singulares de origens antropológicas instrumentais mais cativantes do legado documentado pela discografia dos músicos e funciona esplendidamente como a obra solitária inteiramente ancorada conceitualmente às raízes folclóricas. A origem da espinha dorsal sônica enraizada inegavelmente desta faixa remonta primariamente ao som peculiar ressonante de antiquário emanado provindo das velhas manivelas solenes do modelo rústico de um majestoso e genuíno "órgão de bomba" datado originário da remota metade do século XIX (especificamente proveniente dos distantes meados de 1850). Comprado ou descoberto em antiquários e operado através dos pés mecânicos artesanais e das mãos reverenciais pelo próprio vocalista líder Eddie Vedder durante uma isolada e silenciosa gravação amadora em fita demo ocorrida historicamente ainda nos idos anais de 2015, os registros primordiais da frequência rústica peculiar dos foles abafados operados e emanados pelo artefato vintage arcaico da era vitoriana e pré-industrial dos Estados Unidos foram amorosamente, propositalmente e cuidadosamente extraídos, integrados de forma pura, preservados solenemente nos microfones digitais e integralizados sem retoques na edição polida da versão final cristalina de estúdio.

Para amplificar de forma sublime o panorama imersivo desta balada contemplativa fantasmagórica sem manchar o núcleo solitário operístico forjado por Vedder, a canção abrigou elementos acústicos hipnóticos pontuais provindos generosamente de seus pares instrumentais do grupo: os delicados repiques harmônicos polirrítmicos da exótica e milenar kalimba africana operada magistralmente nos pulsos de Jeff Ament, combinada perfeitamente com a cadência ritmada orgânica extraída do violão de seis cordas acústico e morno abraçado fortemente por Stone Gossard, que culmina simultaneamente sobre o contorno de uma paisagem fantasmagórica provida pelo arco magnético ininterrupto do singular aparelho E-bow operado incansavelmente ao longo das guitarras espaciais elétricas de Mike McCready. O próprio exímio compositor Gossard exaltou apaixonadamente as infinitas glórias poéticas da peça e ponderou criticamente o reflexo assustador das profundas inspirações absorvidas avidamente do genial poeta literário estadunidense e Prêmio Nobel, Bob Dylan (especialmente atrelado indubitavelmente às dimensões profundas enredadas com a narrativa folclórica poética americana secular abordada no texto).

O cenário dissecado poético no desfecho exibe e examina de perto a jornada da passagem ritualística arriscada através do purgatório simbólico das águas obscuras tumultuadas impetuosas e desconhecidas; o lamento sombrio da existência mortal das incertezas frente ao avanço desumano de tempestades e correntes subterrâneas violentas arrastadoras para o lodo escuro da história moderna do planeta (a contínua "correnteza mortal oculta submarina" referenciada inúmeras vezes como o "undertow"). O peso denso melancólico reflete com gravidade as preocupações com atrocidades brutais governamentais institucionais e climáticas. Não obstante à dor asfixiante do pessimismo fúnebre predominante exposto à mercê dos elementos desgraçados terrestres documentados com zelo exaustivamente nas denúncias enfáticas recheando ao extremo as páginas das onze fábulas pregressas do conteúdo de Gigaton, o profeta lírico Vedder decreta obstinadamente perante as tribulações e a escuridão o grande mandamento afirmativo inquebrantável solidário: a exigência cívica irrefutável sagrada da cooperação humana iluminada perante às trevas mortais. A liturgia e exortação conclusiva cantada e cravada imperiosamente, "Share the light, won't hold us down" (Compartilhem a luz vital, e definitivamente nada nos manterá subjugados para baixo neste rio) ergue a música majestosa em um estandarte redentor do anti-niilismo indestrutível definitivo.

Notas sobre a Produção

A grande virada operacional do disco foi a transição da chefia de produção: o veterano Brendan O'Brien (responsável pela maior parte do catálogo dos anos 90 e por Backspacer / Lightning Bolt) cedeu o posto principal ao coprodutor Josh Evans, ficando restrito a contribuições pontuais de teclados em "Quick Escape" e "Retrograde". Evans estimulou a banda a trabalhar fora da zona de conforto do hard-rock analógico, montando "Seven O'Clock" como um quebra-cabeça de fragmentos de uma jam de 2017 e introduzindo texturas eletrônicas modulares que são novidade no repertório do grupo.

As sessões transcorreram entre Seattle (GT Studios e Ballard Baitshop, este último gerido por Nathan Yaccino, onde foram capturados os vocais de Megan Grandall em "Take The Long Way") e o Horseback Court Studios, o estúdio caseiro de Jeff Ament em Montana, marcando a primeira vez que um disco oficial do Pearl Jam credita gravações nessas instalações rurais do baixista. Gigaton foi também o primeiro álbum da banda mixado em Dolby Atmos, permitindo que cada elemento (kalimba, E-bow, baterias programadas, órgão de 1850) ocupasse posições espaciais distintas em vez de colidir num campo estéreo plano.

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Nota da publicação: o paste original começou a se desfazer na seção de produção, encerrando com texto repetitivo e conteúdo não relacionado. Este documento preserva o material analítico íntegro (intro, estética visual, faixa-a-faixa 1-12 e tabela de citações) e resume em parágrafo curto os pontos verificáveis sobre produção e estúdios. Conclusão original do paste descartada por corrupção.