'Green Disease' é a quinta faixa de Riot Act (2002), o álbum que o Pearl Jam escreveu logo após dois eventos que definiram seu clima emocional: os ataques de 11 de setembro e a tragédia do Roskilde Festival em 30 de junho de 2000, em que nove fãs morreram durante o set da banda quando uma onda de público esmagou parte da plateia contra o palco. Riot Act é, portanto, um álbum sobre luto e sobre raiva contra o poder concentrado. 'Green Disease' é a faixa de raiva. O 'green' do título é o verde do dinheiro, e a letra é uma das declarações mais diretas contra a ganância que a banda já emitiu.
Stone Gossard escreveu a música; Vedder escreveu a letra. A faixa é incomumente compacta para uma música de Riot Act: menos de três minutos, com estrutura de refrão que é quase punk na insistência de retornar ao mesmo gancho. Essa compressão faz parte do argumento da música. A ganância, segundo a canção, é uma doença simples com sintomas simples; a música não precisa ser complicada pra diagnosticá-la. Vedder discutiu a canção em alguns lugares, mais diretamente nas entrevistas da Riot Act tour em 2003, em que a enquadrou como uma das poucas músicas dele que saiu inteira em uma única sessão.
O contexto da música é o início do governo Bush. Riot Act foi finalizado em 2002, no período em que a Guerra do Iraque estava sendo justificada publicamente e os cortes de impostos de Bush em 2001 tinham acabado de ser sancionados. A banda logo se tornaria um dos atos de rock mainstream mais vocais contra a presidência Bush, e 'Green Disease' faz parte desse corpo de trabalho ao lado de 'Bu$hleaguer' (também em Riot Act) e da Vote for Change tour da qual participariam em 2004 com R.E.M. e Bruce Springsteen. O alvo específico da canção é a espécie de pessoa que a banda via como lucrando com o clima pós-11 de setembro sem se comover com ele.
A música nunca teve presença forte ao vivo. Faixas de Riot Act em geral circularam menos do que faixas de Vs. ou Yield, em parte porque o próprio Riot Act foi o álbum do Pearl Jam de pior venda até então e em parte porque a banda tende a aposentar seu material politicamente mais direcionado depois que o momento político passa. 'Green Disease' apareceu em menos de cem shows em vinte e três anos de turnê. Suas aparições se concentram em torno da própria Riot Act tour e da South American Tour 2005, que marcou um breve revival de Riot Act na construção de setlist da banda.
Letra de Vedder, ataque frontal à ganância como doença social. O título joga com a cor verde do dinheiro americano e com a expressão 'green with envy' (verde de inveja), embora aqui a inveja seja substituída pela cobiça.
A decisão tradutória mais delicada foi com o fechamento 'G-R-E-E-D'. Vedder soletra a palavra inglesa pra ganância como sigla cerimoniosa. Em português, GREED não diz nada ao leitor brasileiro, e a opção foi traduzir a soletração como C-O-B-I-Ç-A. Mantive 'cobiça' em vez de 'ganância' porque cobiça carrega registro religioso mais forte (cobiçar é pecado dos dez mandamentos), e o registro casa com o tom moralista que Vedder está adotando.
'A satiation with occupation' é jogo de paralelismo sonoro entre 'satiation' e 'occupation'. Em português, 'saciedade com ocupação' preserva a aliteração interna ('-ação') sem forçar.
'And like weeds, with big leaves / Stealing light from what's beneath' é a metáfora central da injustiça econômica. Ervas daninhas com folhas grandes que roubam o sol das plantas baixas: os ricos sufocando os pobres. 'E como ervas daninhas, com folhas grandes / Roubando luz do que tá embaixo' preserva a ecologia da exploração.
'Tell the captain / This boats not safe / And we're drowning. / Turns out / He's the one making waves' é a virada acusatória. O capitão a quem se pede socorro é justamente quem produz a tempestade. 'Diz pro capitão... Acontece que ele é quem tá fazendo as ondas' devolve a frustração de quem descobre a fonte do problema tarde demais.
Em 2 de dezembro de 2005 no Estádio do Pacaembu, 'Green Disease' chegou no slot 4 do show como uma das aparições mais consistentes em setlist da South American Tour 2005. A canção vive quase inteiramente no aglomerado da era Riot Act e da turnê sul-americana de 2005, e sua colocação nessa noite refletiu o compromisso específico da banda em manter as faixas politicamente direcionadas do álbum em circulação ativa enquanto o momento político ainda fosse legível. O contexto do início do governo Bush em que a música foi escrita ainda não havia se resolvido no fim de 2005, e o enquadramento anti-ganância da canção por acaso aterrissou em São Paulo durante um período politicamente carregado no Brasil. A estrutura compacta combinou com a função de andamento do slot 4: menos de três minutos, tempo travado, sem solo estendido, preparou o público pra o material de forma mais longa que chegaria nos slots 5 e 6.