Letra de Vedder, uma das mais comprimidas e quase aforísticas de Riot Act. A música é pedido literal de socorro, sequenciado em estrofes que alternam imploração ('me diz mentiras', 'me diz por que') e reconhecimento ('não é meu inimigo').
A decisão tradutória central foi 'Tell me lies'. Em inglês, a expressão pode ser pedido sincero (me minta porque a verdade é insuportável) ou ironia. 'Me diz mentiras' preserva o pedido aparente sem fixar a leitura irônica. 'Tell me lies, tell me lies, tell me' tem na terceira repetição truncada o sinal de que o narrador já não consegue articular o pedido inteiro, e em português 'me diz mentiras, me diz' devolve o truncamento.
'Shell of the man from the sea' é referência possivelmente bíblica (o homem do mar = pescador, apóstolo) cruzada com imagem orgânica (casca, concha vazia). 'Casca do homem do mar' preserva ambas, deixando a interpretação aberta.
'A hundred thieves / Cast a spell / This is hell' tem rima interna ('spell / hell') que em português não se preserva ('feitiço / inferno'). Optei por sacrificar a rima em favor da imagem, mantendo 'Cem ladrões / Lançam um feitiço / Isso é o inferno' como sequência declarativa.
O fechamento, 'The man they call my enemy, I've seen his eyes / He looks just like me, a mirror / Not my enemy', é a virada moral. O inimigo nomeado pelo poder é um espelho. 'O homem que eles chamam de meu inimigo, eu vi os olhos dele / Ele se parece comigo, um espelho / Não é meu inimigo' devolve o reconhecimento dirigido a quem segue o discurso oficial.