'Faithfull' é a segunda faixa de Yield (1998). A letra duplicada intencional no título (que a banda confirmou em várias entrevistas que deve ser lido como 'faithfull', não 'faithful') sinaliza o gesto temático central da canção: a letra excedente é uma ferida, um excesso, uma coisa que não devia estar ali mas está. Stone Gossard escreveu a música; Vedder escreveu a letra. A canção é uma crítica à certeza religiosa e, de modo mais amplo, às estruturas sociais que se organizam em torno da exigência de lealdade inquestionável.
Vedder se descreveu em entrevistas dos anos 1990 e 2000 como agnóstico. Ele cresceu numa casa católica em San Diego antes de descobrir, no fim da adolescência, que o homem que lhe disseram ser seu pai não era. Esse fato biográfico, que é a semente de 'Alive', também é a semente de 'Faithfull'. A letra é desconfiada de qualquer sistema que peça confiança sem oferecer honestidade recíproca. O narrador não é antirreligião; é antiengano. A 'verdade' da canção é que a exigência social por fé é emitida mais alto pelas instituições menos dispostas a serem examinadas.
Musicalmente, a canção é um exercício de contenção de Stone Gossard. O verso é um único acorde que não se move por vários compassos antes de a ponte introduzir uma elevação de meio tom que libera a tensão. O arranjo apresenta uma das execuções mais econômicas de Mike McCready em Yield: ele toca uma única figura repetida sob o verso e só faz solo por oito compassos no centro da música. A bateria de Matt Cameron, que tinha entrado na banda recentemente quando Yield foi gravado, é o motor estrutural da canção. A tendência de Cameron de tocar polirritmicamente sobre uma batida estável dá a 'Faithfull' a textura que a distingue dos arranjos mais diretos de Vitalogy.
A canção foi single de Yield, o terceiro lançado, e teve execução moderada no rádio em 1998 antes de ser eclipsada pela mais comercialmente óbvia 'Wishlist'. Ao vivo, 'Faithfull' tem permanecido em rotação estável mas não pesada. É o gênero de música que a banda traz quando quer que o público a ouça pensar, em vez de ouvi-la fazer rock. McCready disse em 2007 na Pearl Jam Radio que 'Faithfull' é uma de suas favoritas pra tocar ao vivo precisamente porque não exige que ele faça muita coisa.
A música abre com a placa de um quarto de hotel histórico ('Plaque on the wall says that no one's slept here') e usa essa anomalia, um lugar onde ninguém nunca esteve, pra montar metáfora da fé que ninguém testa. Vedder, criado católico, escreve aqui da posição de quem desconfia de qualquer sistema que peça lealdade sem oferecer honestidade recíproca.
A decisão central foi com o título: 'Faithfull' com dois 'l'. O extra é proposital, uma ferida na palavra, sinalizando que a fé excessiva já é deformação. Em português não há como replicar visualmente o gesto sem alterar a palavra, então o ensaio é o único lugar onde isso pode ser preservado. No corpo da letra, 'we're faithful' virou 'somos fiéis', sem distorção gráfica, e a deformação tem que ser ouvida na ironia que o resto da música constrói.
Outra escolha foi com 'M.Y.T.H. is'. Vedder soletra a palavra, fazendo dela uma sigla cerimoniosa, como se mito fosse uma instituição. Mantive 'M.I.T.O. é' pra preservar o gesto de soletração, transferindo o jogo gráfico pro alfabeto português. Traduzir como 'mito' simples derrubaria o ar litúrgico que a soletração estabelece.
'Belief in the game controls that keeps us in a box of fear' foi traduzido como 'Crença nos controles do jogo que nos mantêm numa caixa de medo'. A imagem da caixa é fundamental: a fé aqui não é elevação, é contenção. 'The man upstairs' virou 'o cara lá em cima', preservando o tom familiar e ligeiramente desrespeitoso com que Vedder se refere a Deus, sem cair em algo solene demais que perderia o sarcasmo.
Em 2 de dezembro de 2005 no Estádio do Pacaembu, 'Faithfull' chegou no slot 8 do show, logo depois que 'Even Flow' havia usado o solo pra descarregar o tempo da casa. A colocação é estruturalmente interessante: uma música projetada pra fazer o público pensar em vez de fazer rock, jogada logo depois do primeiro grande pico de andamento do show. O público de 2005, onze anos longe do último show brasileiro completo da banda, estava atento o bastante pra acompanhar o movimento filosófico; o bootleg dessa noite preserva aquele tipo de quietude de meio de show que o verso pede e que públicos de arena nem sempre concedem. O solo econômico de oito compassos de McCready no centro da música aterrissou exatamente onde a versão de estúdio coloca, sem extensão, o que é consistente com o jeito que a banda toca 'Faithfull' quando quer usá-la como peça pra pensar em vez de peça de rock.
Em 6 de novembro de 2011 na Praça da Apoteose, 'Faithfull' chegou no slot 7 do show, oito posições antes da colocação no Pacaembu 2005. O emprego muito mais cedo refletiu a ordem estruturalmente distinta do show no Rio, em que a banda usava peças pra pensar da era Yield no primeiro terço do show em vez de como resets de meio de set. O público do Sambódromo, em uma turnê em que shows brasileiros agora tinham se tornado as paradas continentais com público mais atentamente vocal da banda, recebeu o movimento filosófico da canção com a forma de quietude de meio de show que públicos de arena nem sempre concedem. O solo econômico de oito compassos de McCready no centro da música aterrissou exatamente onde a versão de estúdio coloca.
Em 11 de novembro de 2015 na Arena do Grêmio, 'Faithfull' chegou no slot 10 do show como a peça pra pensar da era Yield empregada pra resetar o registro emocional da casa. O público brasileiro, no show de abertura da turnê, recebeu o movimento filosófico da canção com quietude sustentada de meio de show. O solo econômico de oito compassos de McCready no centro da música aterrissou sem extensão.