'Pilate' é a décima primeira faixa de Yield (1998). A música é de Jeff Ament; a letra é de Vedder. A canção é uma das letras mais obscuras em Yield e uma das poucas faixas do Pearl Jam nomeadas em homenagem a uma figura histórica específica (Pôncio Pilatos, o prefeito romano da Judeia que presidiu o julgamento de Jesus). A escolha do nome sinaliza a preocupação central da canção com o peso moral de decisões executivas tomadas sob pressão política.
A letra é uma das composições mais oblíquas de Vedder sobre cumplicidade. O narrador não se identifica diretamente com Pilatos; o argumento da canção é estrutural, focado naquele tipo de posição que Pilatos ocupava (uma pessoa com a autoridade de recusar um pedido que toda a pressão política disponível estava urgindo a pessoa a conceder) e no que tais posições revelam sobre as pessoas que as ocupam. A canção não comenta sobre se Pilatos podia ter recusado; documenta a posição e deixa o ouvinte observar tanto a liberdade quanto a armadilha que tais posições contêm.
O arranjo é uma das composições mais econômicas de escrita de Yield de Jeff Ament. O verso é construído sobre uma progressão lenta de acordes carregada principalmente pela linha de baixo de Ament; o refrão se abre num movimento harmônico mais amplo que se resolve via ponte para um breve solo de McCready. A bateria de Matt Cameron na gravação é contida em todo o trajeto, o que serve à postura de observação medida da canção.
Ao vivo, 'Pilate' tem sido presença rara no setlist desde 1998. O assunto específico da canção e a contenção harmônica a tornam difícil de deslocar em shows onde o público está esperando material mais direto, e a banda historicamente reservou a canção para momentos em que seu peso pode aterrissar.
Música é a peça mais obscura do Yield, escrita por Jeff Ament com letra de Vedder. O título referencia Pôncio Pilatos, o prefeito romano que presidiu o julgamento de Jesus, e a imagem do cachorro é citação do romance 'O Mestre e Margarida' de Bulgákov, onde Pilatos só tem o cachorro como companheiro.
A decisão central foi com 'Like Pilate, I have a dog'. Literal e exata, mas o leitor brasileiro perde a referência se não conhece Bulgákov. Optei por 'Como Pilatos, tenho um cachorro' sem explicar, deixando a estranheza do verso operar como operou no original. Quem reconhece reconhece, quem não, vive na mesma penumbra que o ouvinte americano médio. A nota do tradutor faz o trabalho de contexto que o verso recusa.
'Talk of circles and punching out' foi outra escolha delicada. 'Punching out' tem duplo sentido: bater ponto (sair do trabalho) e dar soco. Em português, 'bater o ponto' carrega o cansaço da rotina assalariada que parece ser o que Vedder está descrevendo. Mantive a leitura trabalhista. 'Drawing circles down' virou 'traçando círculos descendentes', preservando a imagem espiral.
A linha 'Making angels in the dirt' é a mais bonita da letra. 'Snow angels' são feitos na neve, brincadeira infantil, e Vedder transfere o gesto pra terra suja. 'Fazendo anjos na terra' preserva a melancolia de quem repete na sujeira o que devia ser feito no branco. O parêntese '(Obeys, listens, kisses, loves)' virou '(Obedece, escuta, beija, ama)': são as qualidades do cachorro, mas também as exigências que se faz de um servo bom, e Pilatos foi exatamente isso pra Roma.
Em 20 de novembro de 2015 no Mineirão, 'Pilate' chegou no nono slot do show como a deep cut da era Yield. A estrutura compacta de menos de quatro minutos serviu à função de pacing do slot: uma âncora da era Yield no mid-set do show.
Em 25 de julho de 2022 no Ziggo Dome, 'Pilate' chegou no oitavo slot do show como a deep cut da era Yield.