SÓ MAIS UM FÃ DE PEARL JAM

Given to Fly

Disco: Yield (1998) · Tocada 530 vezes ao vivo pelo Pearl Jam · estreia ao vivo em 12/11/1997 · última vez em 16/05/2025

Interpretação

'Given to Fly' é a terceira faixa de Yield (1998), o álbum em que o Pearl Jam começou a escrever músicas pra adultos em vez de pra os feridos de vinte e quatro anos que tinham comprado os três primeiros discos. Mike McCready escreveu a música; Vedder escreveu a letra. O arranjo é fortemente devedor de 'Going to California' do Led Zeppelin IV, e McCready reconheceu abertamente essa dívida em várias entrevistas, incluindo uma matéria da Guitar World em 1998. Ele a enquadrou como homenagem, não como influência: o objetivo era escrever uma música que parecesse, estruturalmente, uma balada acústica do Zeppelin com erupções elétricas.

A letra é uma parábola. Vedder descreve uma figura que recebe a habilidade de voar, que retorna ao chão pra compartilhar o que aprendeu, e que então é atacada e despida pelas pessoas que tenta ajudar. A figura tem sido lida de várias formas: como alegoria cristã, como autorretrato do Pearl Jam (a banda como artista que dá presentes e é punida por isso) e como fábula mais geral sobre generosidade num mundo hostil. Vedder foi deliberadamente impreciso em entrevistas quando perguntado qual leitura está correta. Em uma entrevista de 1998 à Rolling Stone divulgando Yield, ele disse apenas que 'the song is about love' (a música é sobre amor) e se recusou a elaborar.

Yield como álbum foi a primeira reconciliação real da banda com seu público depois do recuo de No Code. McCready disse em PJ20 que 'Given to Fly' foi uma das músicas que o fez sentir, durante as sessões de gravação, que a banda talvez sobrevivesse às próprias discussões. A banda esteve famosamente perto de acabar nesse período (Jack Irons sairia durante a turnê de divulgação devido a crises de ansiedade; foi substituído por Matt Cameron, baterista do Soundgarden, que é o baterista da banda desde então), e 'Given to Fly' foi, no enquadramento de McCready, uma espécie de presente que a banda deu a si mesma.

Ao vivo, a canção ocupa uma posição específica em setlists. É quase sempre colocada no primeiro terço de um show, onde serve como o primeiro momento de 'lift', um vocal coletivo de público que a banda usa pra medir a energia da casa antes de decidir quanto risco assumir no resto do set. Vedder tipicamente deixa a multidão carregar o terço sem palavras da música, e em noites boas essa seção pode durar dois minutos a mais que a gravação de estúdio. McCready frequentemente estende o solo final pra território Hendrix; em bootlegs a música pode chegar a seis minutos apesar dos quatro minutos de duração de estúdio.

Notas de tradução

A música é parábola sobre generosidade num mundo hostil. Vedder se recusou em entrevistas a fixar a leitura, dizendo apenas que 'a música é sobre amor'. McCready escreveu o riff modelado no 'Going to California' do Zeppelin, e o arco da letra acompanha a estrutura cinematográfica do voo, queda e ressurreição.

A linha mais carregada é 'By faceless men, well, fuckers'. A pausa, a quase desistência e o palavrão final são o único momento em que o narrador deixa o tom da parábola pra falar como quem viu acontecer. Traduzi como 'Por homens sem rosto, esses filhos da puta' porque o palavrão brasileiro precisa ser visceral o suficiente pra romper o registro elevado dos versos anteriores, do mesmo jeito que 'fuckers' rompe em inglês.

'He still stands' é a frase que carrega o peso teológico da música. Literal seria 'ele ainda fica de pé', mas 'stands' em inglês também sugere 'permanece, resiste, ainda existe'. Mantive 'Ele ainda fica de pé' porque o gesto físico de quem foi esfaqueado e despido e segue em pé devolve toda a violência do verso anterior em uma única imagem.

A frase final, 'A human being that was given to fly', tem 'given to' como construção ambígua: 'dado pra voar' (recebeu a habilidade) ou 'inclinado a voar' (tem propensão). Em português, 'foi concedido a voar' soa estranho, mas é deliberado: preserva a estranheza do original, que também não é construção idiomática do inglês. A imagem do ponto estranho no céu virou 'um ponto estranho no céu', e o leitor é deixado pra decidir se é OVNI, anjo, ou ser humano voando.

Ao vivo nos shows deste arquivo

Mais do disco Yield

Ouvir e ver as cifras no site