'Given to Fly' é a terceira faixa de Yield (1998), o álbum em que o Pearl Jam começou a escrever músicas pra adultos em vez de pra os feridos de vinte e quatro anos que tinham comprado os três primeiros discos. Mike McCready escreveu a música; Vedder escreveu a letra. O arranjo é fortemente devedor de 'Going to California' do Led Zeppelin IV, e McCready reconheceu abertamente essa dívida em várias entrevistas, incluindo uma matéria da Guitar World em 1998. Ele a enquadrou como homenagem, não como influência: o objetivo era escrever uma música que parecesse, estruturalmente, uma balada acústica do Zeppelin com erupções elétricas.
A letra é uma parábola. Vedder descreve uma figura que recebe a habilidade de voar, que retorna ao chão pra compartilhar o que aprendeu, e que então é atacada e despida pelas pessoas que tenta ajudar. A figura tem sido lida de várias formas: como alegoria cristã, como autorretrato do Pearl Jam (a banda como artista que dá presentes e é punida por isso) e como fábula mais geral sobre generosidade num mundo hostil. Vedder foi deliberadamente impreciso em entrevistas quando perguntado qual leitura está correta. Em uma entrevista de 1998 à Rolling Stone divulgando Yield, ele disse apenas que 'the song is about love' (a música é sobre amor) e se recusou a elaborar.
Yield como álbum foi a primeira reconciliação real da banda com seu público depois do recuo de No Code. McCready disse em PJ20 que 'Given to Fly' foi uma das músicas que o fez sentir, durante as sessões de gravação, que a banda talvez sobrevivesse às próprias discussões. A banda esteve famosamente perto de acabar nesse período (Jack Irons sairia durante a turnê de divulgação devido a crises de ansiedade; foi substituído por Matt Cameron, baterista do Soundgarden, que é o baterista da banda desde então), e 'Given to Fly' foi, no enquadramento de McCready, uma espécie de presente que a banda deu a si mesma.
Ao vivo, a canção ocupa uma posição específica em setlists. É quase sempre colocada no primeiro terço de um show, onde serve como o primeiro momento de 'lift', um vocal coletivo de público que a banda usa pra medir a energia da casa antes de decidir quanto risco assumir no resto do set. Vedder tipicamente deixa a multidão carregar o terço sem palavras da música, e em noites boas essa seção pode durar dois minutos a mais que a gravação de estúdio. McCready frequentemente estende o solo final pra território Hendrix; em bootlegs a música pode chegar a seis minutos apesar dos quatro minutos de duração de estúdio.
A música é parábola sobre generosidade num mundo hostil. Vedder se recusou em entrevistas a fixar a leitura, dizendo apenas que 'a música é sobre amor'. McCready escreveu o riff modelado no 'Going to California' do Zeppelin, e o arco da letra acompanha a estrutura cinematográfica do voo, queda e ressurreição.
A linha mais carregada é 'By faceless men, well, fuckers'. A pausa, a quase desistência e o palavrão final são o único momento em que o narrador deixa o tom da parábola pra falar como quem viu acontecer. Traduzi como 'Por homens sem rosto, esses filhos da puta' porque o palavrão brasileiro precisa ser visceral o suficiente pra romper o registro elevado dos versos anteriores, do mesmo jeito que 'fuckers' rompe em inglês.
'He still stands' é a frase que carrega o peso teológico da música. Literal seria 'ele ainda fica de pé', mas 'stands' em inglês também sugere 'permanece, resiste, ainda existe'. Mantive 'Ele ainda fica de pé' porque o gesto físico de quem foi esfaqueado e despido e segue em pé devolve toda a violência do verso anterior em uma única imagem.
A frase final, 'A human being that was given to fly', tem 'given to' como construção ambígua: 'dado pra voar' (recebeu a habilidade) ou 'inclinado a voar' (tem propensão). Em português, 'foi concedido a voar' soa estranho, mas é deliberado: preserva a estranheza do original, que também não é construção idiomática do inglês. A imagem do ponto estranho no céu virou 'um ponto estranho no céu', e o leitor é deixado pra decidir se é OVNI, anjo, ou ser humano voando.
Em 2 de dezembro de 2005 no Estádio do Pacaembu, 'Given to Fly' chegou no slot 6 do show, que corresponde à colocação típica de primeiro terço da canção em todo o catálogo de turnês da banda. O papel em uma dada noite é medir a energia do público pelo terço sem palavras da música; a participação vocal do público do Pacaembu nessa seção durou mais que a duração de estúdio, que é aquele gênero de extensão liderada pelo público que a banda usa como permissão pra correr mais risco no resto do set. O solo final de McCready nessa gravação se estende pra território Hendrix que a estrutura pede, e a resposta do público sustentou a extensão. Quando o slot 6 terminou, a banda tinha recebido comprometimento de público suficiente pra saber que tipo de show seria o resto da noite.
Em 4 de novembro de 2011 no Estádio do Morumbi, 'Given to Fly' chegou no slot 7 do show, ocupando a colocação típica de primeiro terço da canção em setlists de meados dos anos 2010. O hino da era Yield serviu como o primeiro grande momento de elevação vocal do show, e a participação vocal do público do Morumbi durante o terço sem palavras da música se estendeu além da duração de estúdio. O solo final de McCready nessa gravação se estendeu pra território Hendrix que a forma da canção convida. A colocação sete músicas adentro (uma posição à frente da posição no Pacaembu 2005) refletiu a curva de elevação ligeiramente acelerada da noite.
Em 6 de novembro de 2011 na Praça da Apoteose, 'Given to Fly' chegou no slot 5 do show, ocupando a colocação típica de primeiro terço que a canção mantém em setlists de meados dos anos 2010. O hino da era Yield serviu como o primeiro grande momento de elevação vocal do show, e a participação vocal do público do Rio durante o terço sem palavras da música se estendeu além da duração de estúdio, do jeito que tinha feito nas duas datas brasileiras anteriores. O solo final de McCready nessa gravação se estendeu pra território Hendrix que o arranjo da canção convida. A geometria acústica a céu aberto do Sambódromo amplificou a resposta do público de jeitos que os shows internos do Morumbi não tinham.
Em 9 de novembro de 2011 na Vila Capanema, 'Given to Fly' chegou no slot 8 do show, ocupando a colocação típica de primeiro terço que a canção mantém em setlists de meados dos anos 2010. O hino da era Yield serviu como o primeiro grande momento de elevação vocal do show, e a participação vocal do público da Vila Capanema durante o terço sem palavras se estendeu além da duração de estúdio, do jeito que tinha feito em todas as datas brasileiras anteriores de 2011. O solo final de McCready nessa gravação se estendeu pra território Hendrix que a estrutura da faixa pede.
Em 31 de março de 2013 no Jockey Club, 'Given to Fly' chegou no slot 19 do show, mais profunda que a colocação típica de primeiro terço da canção. O emprego mais profundo refletiu a ordem estruturalmente distinta do show de festival, em que a banda usava a função de elevação vocal de público da canção como âncora de fim de set. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix.
Em 3 de abril de 2013 no Costanera Sur, 'Given to Fly' chegou no slot 11 do show, ocupando uma posição de meio de set em vez da colocação típica de primeiro terço da canção. O hino da era Yield serviu como o primeiro grande momento de elevação vocal do show. A participação vocal do público argentino durante o terço sem palavras se estendeu além da duração de estúdio.
Em 6 de abril de 2013 no Parque O'Higgins, 'Given to Fly' chegou no slot 19 do show, mais profunda que a colocação típica de primeiro terço da canção. O solo final de McCready nessa gravação se estendeu pra território Hendrix que a arquitetura da faixa pede. A participação vocal do público chileno durante o terço sem palavras se estendeu além da duração de estúdio.
Em 11 de novembro de 2015 na Arena do Grêmio, 'Given to Fly' chegou no slot 30 do show, consideravelmente mais profunda que a colocação típica de primeiro terço da canção. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix.
Em 17 de novembro de 2015 no Mané Garrincha, 'Given to Fly' chegou no slot 17 do show. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix, e a participação vocal do público durante o terço sem palavras se estendeu além da duração de estúdio.
Em 14 de novembro de 2015 no Estádio do Morumbi, 'Given to Fly' chegou no slot 16 do show. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix, e a participação vocal do público brasileiro durante o terço sem palavras se estendeu além da duração de estúdio.
Em 20 de novembro de 2015 no Mineirão, 'Given to Fly' chegou no slot 12 do show. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix.
Em 22 de novembro de 2015 no Maracanã, 'Given to Fly' chegou no slot 14 do show. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix, e a participação vocal do público do Rio durante o terço sem palavras se estendeu além da duração de estúdio.
Em 21 de março de 2018 no Maracanã, 'Given to Fly' chegou no slot 7 do show. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix.
Em 29 de agosto de 2024 no Wrigley Field, 'Given to Fly' chegou no slot 6 do show. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix, e a participação vocal do público durante o terço sem palavras se estendeu além da duração de estúdio.
Em 31 de agosto de 2024 no Wrigley Field, 'Given to Fly' chegou no slot 11 do show. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix.
Em 11 de novembro de 2011 no Estádio Beira-Rio, 'Given to Fly' chegou no slot 7 do show, ocupando a colocação típica de primeiro terço que a canção mantém em setlists de meados dos anos 2010. O hino da era Yield serviu como o primeiro grande momento de elevação vocal do show. A participação vocal do público de Porto Alegre durante o terço sem palavras se estendeu além da duração de estúdio, do jeito que públicos brasileiros tinham carregado a canção em todas as datas de 2011. O solo final de McCready nessa gravação se estendeu pra território Hendrix que a arquitetura da canção pede.
Em 2 de outubro de 2021 em Doheny State Beach, 'Given to Fly' chegou no slot 9 do show.
Em 25 de julho de 2022 no Ziggo Dome, 'Given to Fly' chegou no slot 15 do show. O solo final de McCready se estendeu pra território Hendrix.