SÓ MAIS UM FÃ DE PEARL JAM

Go

Disco: Vs. (1993) · Tocada 355 vezes ao vivo pelo Pearl Jam · estreia ao vivo em 13/05/1993 · última vez em 22/05/2024

Interpretação

'Go' é a faixa de abertura de Vs. (1993) e uma das músicas mais propulsivas que o Pearl Jam já gravou. Jeff Ament escreveu a música, que marcou uma virada importante pra banda: Vs. seria o disco em que a cozinha rítmica afirmou peso igual ao dos guitarristas, e 'Go' anunciou essa virada nos primeiros dez segundos. A faixa foi gravada no The Site, em Marin County, Califórnia, no início de 1993, em sessões famosamente repletas de discussões sobre quanta pressão a banda estava disposta a absorver depois que Ten havia movido mais de dez milhões de cópias.

A letra de Vedder é, segundo descrição dele mesmo, dirigida a uma arma de fogo. Em uma matéria do MTV News de 1993, Vedder explicou que a voz suplicante em segunda pessoa da canção é dirigida a uma arma. O refrão é uma recusa, um pedido pra que o objeto se afaste da violência. Isso faz parte de uma preocupação mais longa de Vedder com a cultura armamentista americana, que aparece em 'Glorified G' no mesmo álbum e ressurge dez anos depois em 'Bu$hleaguer' e 'Down'. Vs. é, mais que qualquer outro disco do Pearl Jam, um álbum de recusas, e 'Go' é a primeira e mais física delas.

O arranjo é um modelo de contenção disfarçada de agressão. A bateria de Dave Abbruzzese bate em todos os tempos na primeira metade da música, antes da ponte liberar a tensão; a guitarra de Stone Gossard fica enterrada sob o lead de McCready, o que é incomum no catálogo do PJ e dá à faixa um peso desbalanceado pra cima que combina com o pânico da letra. A escolha de pôr 'Go' na primeira faixa de Vs. foi deliberada: em PJ20, Stone discute como a banda queria que os ouvintes se sentissem emboscados pelo novo disco, e 'Go' devia ser essa emboscada.

Ao vivo, 'Go' tem sido uma abertura de set por excelência e um reignitor de meio de show. Raramente é enterrada em setlists; a música funciona como tiro de largada. Foi particularmente favorecida como abridora durante as turnês Riot Act e Pearl Jam (2006) e reapareceu ao longo do ciclo Lightning Bolt. A resposta do público é consistente: desde a primeira batida, a casa tende a se comprimir visivelmente em direção ao palco.

No Pacaembu em 2 de dezembro de 2005, 'Go' abriu o show. A South American Tour 2005 foi a primeira visita de fato do Pearl Jam ao continente em onze anos, e Vedder tratou a abertura como uma confirmação de que a banda finalmente havia voltado. A gravação bootleg captura a voz de Eddie quebrando ligeiramente no segundo verso, o que é coerente com a energia que ele costuma colocar nas primeiras músicas de uma turnê ou nas primeiras músicas de um país.

Notas de tradução

Pearl Jam falando diretamente com a arma. A primeira faixa de Vs. é um pedido de calma feito a um objeto que não pode ser convencido. O narrador trata a arma como entidade autônoma, capaz de "act up" e "go on" sozinha, e isso é o ponto: armas matam quando os donos esquecem que são objetos. Vedder canta como quem implora a um cachorro que já mordeu antes pra não morder de novo. A ambiguidade entre arma e vício é deliberada: Jeff Ament escreveu a música em resposta à epidemia de overdoses na cena de Seattle, e o objeto sendo implorado pode ser química também.

A escolha tradutória mais delicada está em "go on me". O sentido literal é "explodir/disparar em mim". O figurado é "me abandonar/falhar". Em inglês ambos coexistem na mesma frase. Traduzir como "Não exploda em mim" preserva o significado da arma enquanto deixa o ouvinte intuir a leitura sentimental do abandono. "Não me deixe na mão" seria mais idiomático mas perderia o disparo.

A linha "Once fastened, servile, now you're getting sharp" é o coração: a arma era servil (presa no bolso, dócil), agora se afia sozinha. Vedder personifica o aço como animal raivoso que cresce em independência. Traduzir "getting sharp" como "se afiando" preserva o gesto físico do metal aquecendo e se preparando.

O fim repete "Don't go on me" quatro vezes, em diminuição vocal. O quarto pedido é quase sussurrado. Em português, "Não exploda em mim" carrega o mesmo gesto: pedir pra que a coisa não estoure quando já é tarde demais pra recolher.

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