'Go' é a faixa de abertura de Vs. (1993) e uma das músicas mais propulsivas que o Pearl Jam já gravou. Jeff Ament escreveu a música, que marcou uma virada importante pra banda: Vs. seria o disco em que a cozinha rítmica afirmou peso igual ao dos guitarristas, e 'Go' anunciou essa virada nos primeiros dez segundos. A faixa foi gravada no The Site, em Marin County, Califórnia, no início de 1993, em sessões famosamente repletas de discussões sobre quanta pressão a banda estava disposta a absorver depois que Ten havia movido mais de dez milhões de cópias.
A letra de Vedder é, segundo descrição dele mesmo, dirigida a uma arma de fogo. Em uma matéria do MTV News de 1993, Vedder explicou que a voz suplicante em segunda pessoa da canção é dirigida a uma arma. O refrão é uma recusa, um pedido pra que o objeto se afaste da violência. Isso faz parte de uma preocupação mais longa de Vedder com a cultura armamentista americana, que aparece em 'Glorified G' no mesmo álbum e ressurge dez anos depois em 'Bu$hleaguer' e 'Down'. Vs. é, mais que qualquer outro disco do Pearl Jam, um álbum de recusas, e 'Go' é a primeira e mais física delas.
O arranjo é um modelo de contenção disfarçada de agressão. A bateria de Dave Abbruzzese bate em todos os tempos na primeira metade da música, antes da ponte liberar a tensão; a guitarra de Stone Gossard fica enterrada sob o lead de McCready, o que é incomum no catálogo do PJ e dá à faixa um peso desbalanceado pra cima que combina com o pânico da letra. A escolha de pôr 'Go' na primeira faixa de Vs. foi deliberada: em PJ20, Stone discute como a banda queria que os ouvintes se sentissem emboscados pelo novo disco, e 'Go' devia ser essa emboscada.
Ao vivo, 'Go' tem sido uma abertura de set por excelência e um reignitor de meio de show. Raramente é enterrada em setlists; a música funciona como tiro de largada. Foi particularmente favorecida como abridora durante as turnês Riot Act e Pearl Jam (2006) e reapareceu ao longo do ciclo Lightning Bolt. A resposta do público é consistente: desde a primeira batida, a casa tende a se comprimir visivelmente em direção ao palco.
No Pacaembu em 2 de dezembro de 2005, 'Go' abriu o show. A South American Tour 2005 foi a primeira visita de fato do Pearl Jam ao continente em onze anos, e Vedder tratou a abertura como uma confirmação de que a banda finalmente havia voltado. A gravação bootleg captura a voz de Eddie quebrando ligeiramente no segundo verso, o que é coerente com a energia que ele costuma colocar nas primeiras músicas de uma turnê ou nas primeiras músicas de um país.
Pearl Jam falando diretamente com a arma. A primeira faixa de Vs. é um pedido de calma feito a um objeto que não pode ser convencido. O narrador trata a arma como entidade autônoma, capaz de "act up" e "go on" sozinha, e isso é o ponto: armas matam quando os donos esquecem que são objetos. Vedder canta como quem implora a um cachorro que já mordeu antes pra não morder de novo. A ambiguidade entre arma e vício é deliberada: Jeff Ament escreveu a música em resposta à epidemia de overdoses na cena de Seattle, e o objeto sendo implorado pode ser química também.
A escolha tradutória mais delicada está em "go on me". O sentido literal é "explodir/disparar em mim". O figurado é "me abandonar/falhar". Em inglês ambos coexistem na mesma frase. Traduzir como "Não exploda em mim" preserva o significado da arma enquanto deixa o ouvinte intuir a leitura sentimental do abandono. "Não me deixe na mão" seria mais idiomático mas perderia o disparo.
A linha "Once fastened, servile, now you're getting sharp" é o coração: a arma era servil (presa no bolso, dócil), agora se afia sozinha. Vedder personifica o aço como animal raivoso que cresce em independência. Traduzir "getting sharp" como "se afiando" preserva o gesto físico do metal aquecendo e se preparando.
O fim repete "Don't go on me" quatro vezes, em diminuição vocal. O quarto pedido é quase sussurrado. Em português, "Não exploda em mim" carrega o mesmo gesto: pedir pra que a coisa não estoure quando já é tarde demais pra recolher.
Em 2 de dezembro de 2005 no Estádio do Pacaembu em São Paulo, 'Go' abriu o show como a primeira música da primeira apresentação brasileira de fato do Pearl Jam em onze anos. A banda havia passado pela América do Sul em 1995 sem tocar no Brasil, e a South American Tour 2005 fechou essa lacuna. A escolha de 'Go' como abridora foi característica da construção de set do Pearl Jam de meados dos anos 2000: os primeiros segundos da canção comprimem o público em direção ao palco mais rápido que quase qualquer outra faixa do catálogo, e numa noite em que o público vinha esperando desde a passagem continental anterior da banda, essa compressão carregava peso específico. O bootleg do Pacaembu captura o momento em que o riff de abertura de Ament chega e a reação da casa se registra como um rugido sustentado que se estende sobre o primeiro verso. A música funcionou, naquela noite, como confirmação do público de que a espera havia terminado.
Em 4 de novembro de 2011 no Estádio do Morumbi, 'Go' abriu o show no papel de abridora de alta velocidade que a banda havia escolhido no Pacaembu seis anos antes e repetiu aqui na segunda noite brasileira da Pearl Jam Twenty Tour. A escolha da abridora diferiu estruturalmente da noite 1 (que havia aberto com a lenta 'Release'), e o contraste foi deliberado: a segunda noite no Morumbi foi estruturada como a contraparte mais acelerada e de deep cuts à abertura ancorada em balada da noite anterior. O riff conduzido por Ament cumpre exatamente a função de andamento do slot: compressão instantânea do público em direção ao palco. O bootleg captura a reação da casa aos primeiros segundos como rugido sustentado que se estende sobre o primeiro verso.
Em 9 de novembro de 2011 no Estádio Durival Britto e Silva (Vila Capanema) em Curitiba, 'Go' abriu o show cumprindo o papel de abridora de alta velocidade que a banda vinha empregando ao longo da Pearl Jam Twenty Tour quando a lógica estrutural da noite pedia compressão imediata do público. A Vila Capanema é um dos estádios de futebol mais antigos de Curitiba, menor que o Morumbi ou o Sambódromo, e as dimensões mais comprimidas da casa amplificaram a resposta do público ao riff de abertura de Ament. A Pearl Jam Twenty Tour estava na quarta data brasileira em sete dias, e o show de Curitiba representou a única passagem da banda pela cidade na turnê. O bootleg captura a reação da casa aos primeiros segundos como rugido sustentado que se estende sobre o primeiro verso.
Em 31 de março de 2013 no Jockey Club, 'Go' chegou no slot 24 do show, em uma colocação estrutural incomum: a música tipicamente abre shows em vez de aterrissar tarde na sequência de bis. A colocação profunda refletiu a ordem distinta do show de festival, em que a banda usava os primeiros segundos de compressão instantânea da canção como reset de andamento já em território de bis, em vez de como abridora.
Em 6 de abril de 2013 no Parque O'Higgins, 'Go' chegou no slot 2 do show, convertendo imediatamente o peso lento de 'Release' na espécie de compressão de alta velocidade que os primeiros segundos da canção exigem. O riff conduzido por Ament cumpriu exatamente a função de andamento do slot: compressão instantânea do público em direção ao palco. A reação do público de Santiago se registra no bootleg como rugido sustentado durante todo o primeiro verso.
Em 11 de novembro de 2015 na Arena do Grêmio, 'Go' chegou no slot 26 do show, uma colocação incomumente profunda pra uma música que mais frequentemente abre shows. A colocação em território de bis usou os primeiros segundos de compressão instantânea da canção como reset de andamento de fim de set.
Em 20 de novembro de 2015 no Mineirão, 'Go' chegou no slot 4 do show como a primeira faixa de alta velocidade da noite, convertendo imediatamente a abertura lenta de três músicas em compressão física.
Em 21 de março de 2018 no Maracanã, 'Go' chegou no slot 4 do show como a primeira faixa de alta velocidade da noite, convertendo imediatamente a abertura lenta em compressão física.