'Indifference' é a décima segunda e última faixa de Vs. (1993), o fechamento de álbum que a banda escolheu para suceder 'Leash' como contraste tonal deliberado. A música é creditada a todos os cinco integrantes; a letra é de Vedder. A canção é uma das letras mais diretas no catálogo inicial do Pearl Jam sobre a questão do engajamento político, e uma das poucas canções no catálogo onde a letra recusa resolver sua questão central.
A letra repete uma pergunta ao longo de seus versos: how much difference does it make (quanta diferença isso faz). O narrador descreve uma série de atos de resistência (pequenas recusas, pequenos protestos, pequenas tentativas de ser ouvido) e pergunta se algum deles mudou alguma coisa. A canção não responde à pergunta. Ela documenta o perguntar e deixa o ouvinte observar tanto a resistência quanto a dúvida sobre se a resistência está fazendo o que deveria fazer. Esse é Vedder na sua máxima honestidade filosófica: a canção não está fingindo que engajamento político vale obviamente o custo, e não está fingindo que desengajamento é aceitável tampouco.
O arranjo é um dos fechamentos mais pacientes que a banda já gravou. O verso é construído sobre uma progressão lenta de acordes que não varia; o refrão não eleva em nenhum sentido convencional. A canção é estruturalmente uma meditação em vez de uma canção. A bateria de Dave Abbruzzese é a mais lenta de Vs., o que serve à deliberação da letra. O trabalho de violão de McCready na gravação é contido em todo o trajeto; ele não solou, o que é incomum para um fechamento de álbum do Pearl Jam. A canção desaparece em fade num acorde sustentado em vez de resolver, que é o argumento da canção feito musical: não há resolução para a questão.
A canção nunca foi lançada como single mas tem sido um dos fechadores de encore mais confiáveis da banda ao longo de três décadas. A canção funciona melhor como a última canção de um show, onde sua questão pode ficar suspensa no ar depois que o público sai, em vez de ser resolvida por outra canção que segue. A preferência da banda por 'Indifference' como fechadora foi consistente ao longo das turnês; é uma das canções que sinaliza que um show está agora terminado num sentido permanente em vez de temporário.
A faixa que fecha Vs. é uma das letras mais corajosas do catálogo. Vedder repete a pergunta "How much difference does it make" sem nunca responder, e essa irresolução é o argumento. A música é sobre engajamento político continuado, sobre acender o fósforo todo dia sabendo que pode não importar. A figura central, "I will light the match this morning, so I won't be alone", é o ritual diário de quem ainda escolhe a luz pequena contra o escuro grande.
A coragem da letra está em não fingir certeza. Vedder enumera atos extremos de resistência (segurar a vela até queimar o braço, levar soco até o opressor cansar, encarar o sol até cegar, engolir veneno até ficar imune, gritar até estourar os pulmões) e pergunta entre cada estrofe: faz alguma diferença? Se a resposta fosse sim, a música seria propaganda. Se fosse não, seria desistência. Vedder mantém a pergunta aberta, e essa abertura é o tipo de adulto que ele estava tentando ser em 1993.
A escolha tradutória mais delicada está em "How much difference does it make". "How much" é ambíguo: pode ser pergunta quantitativa real ou ser enfática retórica. Em português escolhi "Quanta diferença isso faz" que preserva a ambiguidade. "Que diferença isso faz" seria leitura retórica fechada (igual a nenhuma); "Quanta" deixa o leitor decidir se é pergunta real ou retórica.
O verso "I won't change direction, and I won't change my mind" é o juramento. Em português, "Não vou mudar de direção, e não vou mudar de ideia" preserva o paralelismo entre direção física e direção mental. A persistência sem garantia de resultado é o que sobra quando o resultado não pode ser garantido.
Em 6 de novembro de 2011 na Praça da Apoteose, 'Indifference' chegou no trigésimo slot do show como uma das escolhas mais raras de encore que a banda podia entregar: um fechamento lento e desafiante da era Vs. que a banda tipicamente reserva para shows onde a arquitetura emocional da noite ganhou uma resolução mais quieta em vez de mais catártica. A letra da canção (uma recusa de ser triturado pelas forças acumuladas do dia) ficou suspensa sobre a posição tardia do encore do mesmo modo que ficou ao longo das duas décadas de história ao vivo da canção. A colocação no Rio refletiu a leitura da banda do peso emocional da noite: o show tinha ganho uma resolução lenta em vez de uma descarga de alta velocidade.
Em 17 de novembro de 2015 no Mané Garrincha, 'Indifference' fechou o show no trigésimo quinto slot como o raro fechamento da era Vs. que a banda reserva para shows onde a arquitetura emocional da noite ganhou uma resolução lenta e desafiante em vez de liberação catártica. O verso final ('how much difference does it make' / quanta diferença isso faz) ficou suspenso sobre a sala como a questão retórica final do show.
Em 12 de maio de 2014 no Citibank Hall, 'Indifference' chegou no vigésimo nono slot do show, com Kelly Slater (11 vezes campeão mundial de surfe e amigo de longa data de Vedder) aparecendo no palco. Slater e Vedder colaboraram por mais de uma década em projetos culturais relacionados a surfe, e a aparição de Slater no fechamento lento da era Vs. deu ao slot o gênero de momento de tributo de amizade interdisciplinar que o formato da turnê solo convidava.
Em 11 de novembro de 2011 no Estádio Beira-Rio, 'Indifference' chegou no trigésimo primeiro slot do show como uma das escolhas mais raras de encore que a banda podia entregar: um fechamento lento e desafiante da era Vs. que a banda tipicamente reserva para shows onde a arquitetura emocional da noite ganhou uma resolução mais quieta em vez de mais catártica. A letra da canção (uma recusa de ser triturado pelas forças acumuladas do dia) ficou suspensa sobre a posição tardia do encore do mesmo modo que ficou ao longo das duas décadas de história ao vivo da canção.
Em 25 de julho de 2022 no Ziggo Dome, 'Indifference' chegou no vigésimo slot do show como o raro fechamento da era Vs.