SÓ MAIS UM FÃ DE PEARL JAM

Backspacer (2009)

Capa do disco Backspacer

Pearl Jam · 2009 · 11 faixas

Faixas

  1. Gonna See My Friend
  2. Got Some
  3. The Fixer
  4. Johnny Guitar
  5. Just Breathe
  6. Amongst the Waves
  7. Unthought Known
  8. Supersonic
  9. Speed of Sound
  10. Force of Nature
  11. The End

Análise do disco

Introdução e Contexto Histórico

Lançado oficialmente em 20 de setembro de 2009, Backspacer constitui o nono álbum de estúdio na prolífica discografia da banda norte-americana de rock Pearl Jam. Registrando uma duração total e concisa de 36 minutos e 38 segundos, a obra detém o recorde de ser o álbum de estúdio mais curto já produzido pelo quinteto de Seattle. No entanto, a importância desta obra não reside em sua brevidade, mas na metamorfose conceitual, lírica e mercadológica que ela representou para uma das últimas bandas sobreviventes do movimento grunge da década de 1990. Para compreender Backspacer, é estritamente necessário analisar o terreno sobre o qual a banda caminhava nos anos que antecederam o seu lançamento.

Durante a primeira metade da década de 2000, o Pearl Jam habitava um espaço de profunda frustração política e luto existencial. O álbum Binaural (2000) foi marcado por experimentações e pela tragédia do Festival de Roskilde, onde nove fãs morreram esmagados. Subsequentemente, Riot Act (2002) serviu como um documento de luto persistente e fúria direcionada à administração de George W. Bush. Quando a banda lançou seu oitavo disco, o autointitulado Pearl Jam de 2006 (carinhosamente e informalmente apelidado pelos fãs e pela mídia como "The Avocado Album" devido à sua capa), a sonoridade começou a retornar a um rock mais direto e vigoroso, provando que o grupo ainda conseguia compor faixas incisivas e manter sua relevada base de fãs fiel para o longo prazo.

Em 2008, o Pearl Jam embarcou em uma das turnês mais afiadas e elogiadas de sua carreira na Costa Leste dos Estados Unidos. O sexteto, agora permanentemente expandido com a adição do tecladista Kenneth "Boom" Gaspar, que se juntara ao grupo em 2002, operava com um vigor coletivo e uma potência instrumental renovada. A paisagem sociopolítica americana também sofria uma alteração sísmica: a eleição do presidente Barack Obama instilou um sentimento palpável de esperança que permeou a cultura popular norte-americana. O vocalista, guitarrista e principal letrista da banda, Eddie Vedder, creditou diretamente essa mudança no clima político nacional como um dos catalisadores para a visão de mundo acentuadamente mais otimista, radiante e revigorada que viria a definir a espinha dorsal lírica de Backspacer. Longe da visão de mundo sombria que permeou a era Bush, o Pearl Jam estava pronto para abraçar a luz.

A Dinâmica de Estúdio e o Retorno de Brendan O'Brien

O arcabouço sônico de Backspacer está indissociavelmente ligado ao retorno de Brendan O'Brien à cadeira de produtor. Um nome lendário no panteão do rock alternativo, O'Brien foi o arquiteto por trás da sonoridade explosiva e refinada de quatro dos mais aclamados álbuns do Pearl Jam na década de 1990: Vs. (1993), Vitalogy (1994), No Code (1996) e Yield (1998). Ele não produzia um disco completo do grupo há exatos 11 anos, marcando este projeto como uma reunião de importância histórica para a dinâmica criativa do conjunto.

A fagulha inicial para esta reunião colaborativa ocorreu um ano antes do início das gravações formais, quando a banda e O'Brien se juntaram para gravar um cover épico da canção "Love, Reign o'er Me", do The Who, encomendado para a trilha sonora do filme Reign Over Me (Reine Sobre Mim). O'Brien descreveu essa sessão isolada como algo excepcionalmente positivo, uma "explosão" de energia que eliminou qualquer constrangimento ou hesitação que pudesse existir após mais de uma década de distanciamento profissional. Ficou claro para ambas as partes que a química permanecia intacta e que a banda estava, em suas próprias palavras, pronta para ser "produzida" novamente, aceitando direcionamentos estruturais de uma figura de autoridade externa.

As sessões de composição para Backspacer começaram a tomar forma de maneira incomum. Em 2008, enquanto Eddie Vedder excursionava em uma aclamada turnê solo para promover a trilha sonora do filme Into the Wild (Na Natureza Selvagem), os instrumentistas do Pearl Jam (os guitarristas Stone Gossard e Mike McCready, o baixista Jeff Ament e o baterista Matt Cameron) reuniram-se em sessões intensivas no estúdio privado de Ament, no estado de Montana. Segundo Gossard, a ausência inicial de Vedder forçou a banda a assumir o controle absoluto do esqueleto instrumental: "Nós reunimos nossas músicas e conseguimos o que era a base do disco, a espinha dorsal dele... Nós carregamos a tocha e a passamos para o Ed, e ele habitou tudo isso. Uma vez que ele envolveu sua mente nas músicas, ele soube como finalizá-las e nós confiamos nele com isso". Brendan O'Brien esteve presente nestas sessões de Montana não como compositor, mas como um arranjador meticuloso, ajudando os instrumentistas a aglutinar ideias dispersas e a organizá-las em estruturas coerentes.

As sessões de gravação principal transcorreram de maneira notavelmente rápida, abrangendo um período entre 16 de fevereiro e 30 de abril de 2009. A maior parte do trabalho foi realizada no Henson Recording Studios em Los Angeles, Califórnia, com sessões adicionais gravadas no Southern Tracks Recording e no Doppler Studios em Atlanta, Geórgia (esta última, a cidade natal de O'Brien). O'Brien revelou que a escolha de Los Angeles foi estratégica; tratava-se de um território "neutro". Desde as sessões nômades e caóticas de No Code em 1996, o Pearl Jam raramente gravava de forma tão proeminente fora de sua fortaleza em Seattle. Ao manter os membros da banda longe de suas rotinas domésticas diárias, mas ainda confortavelmente próximos de casa, O'Brien garantiu que, quando a equipe se reunia ao meio-dia para gravar, o nível de foco era total, rastreando as faixas com a banda tocando junta na mesma sala.

A ausência de tensão foi notável. O'Brien traçou um contraste gigantesco entre a atmosfera de Backspacer e as gravações dos anos 90. Naquela época, o status de fenômeno global do grupo criava um ambiente asfixiante, sobrecarregando Vedder com uma pressão esmagadora. Em 2009, o produtor encontrou uma banda que havia "se acomodado em sua própria pele", com Vedder demonstrando uma liderança fluida que permitia contribuições equitativas. Gossard sumarizou o etos da produção: "Se [uma ideia] não estava realmente se desenvolvendo em uma música ou num enredo, então o pensamento era 'Simplesmente livre-se disso'. Nós fizemos o trabalho certo por elas, elas são frescas e de ritmo acelerado, mas não são superpensadas". Esse pragmatismo originou uma obra enxuta e despida de indulgências progressivas.

A Metamorfose Comercial: O Selo Independente e a Polêmica Parceria com a Target

Além de suas virtudes sônicas, Backspacer é um artefato crucial na história do modelo de negócios do Pearl Jam. Durante dezoito anos, a banda esteve atrelada à maquinaria das grandes gravadoras corporativas, primeiro sob a Epic Records e, posteriormente, concluindo seu contrato com o lançamento de Pearl Jam em 2006 através da J Records. Com as obrigações contratuais extintas, a banda optou por não renovar com gigantes da indústria, decidindo assumir as rédeas de seu próprio destino comercial. O álbum foi lançado nos Estados Unidos inteiramente através da Monkeywrench Records, o selo independente pertencente à própria banda, enquanto a Universal Music Group lidou com a distribuição global via Island Records por meio de um acordo de licenciamento.

No entanto, a liberdade de operar como uma entidade independente no implacável e decrépito mercado fonográfico de 2009 exigiu adaptações estratégicas que geraram ondas de choque na comunidade de fãs. O Pearl Jam estabeleceu uma parceria de exclusividade para a distribuição física de Backspacer nos Estados Unidos com a Target, uma das maiores cadeias de varejo de grande superfície (big-box stores) do país. A estratégia envolvia não apenas colocar os CDs nas prateleiras da Target, mas também permitir que a varejista utilizasse imagens do videoclipe de "The Fixer", dirigido por Cameron Crowe, em comerciais de televisão promovendo tanto a loja quanto o disco. Em adição, uma promoção envolvendo toques de celular e downloads foi fechada com a empresa de telecomunicações Verizon.

A ironia dessa associação não passou despercebida. Na década de 1990, o Pearl Jam definiu o etos alternativo e anticomercial, notabilizando-se por uma guerra judicial aberta e custosa contra o monopólio da Ticketmaster, uma recusa obstinada em produzir videoclipes tradicionais na era de ouro da MTV, e um desprezo palpável por afiliações corporativas. Publicações tradicionais de música britânica, como a revista NME, criticaram asperamente a manobra corporativa. Uma reportagem da NME acusou a banda de "tentar roubar dinheiro dos bolsos dos jovens alternativos". O site Consequence of Sound notou que ver a banda em um comercial televisivo foi "um pouco estranho, cafona e inadequado para o grupo de Seattle". Blogueiros e fãs invadiram fóruns online para expressar descontentamento, com alguns sentindo que a banda havia traído seus ideais de juventude.

Contudo, uma análise mercadológica isenta da época demonstra a astúcia da decisão. Em 2009, as lojas de discos independentes e as grandes redes de mídia (como a Tower Records) estavam em processo avançado de colapso devido à ascensão do download digital ilegal e da transição incipiente para o streaming. Varejistas como a Target representavam os únicos canais físicos robustos capazes de garantir vendas em massa para artistas de rock. Conscientes das possíveis reações adversas e do risco de alienação, o Pearl Jam negociou brechas na exclusividade: o álbum pôde ser adquirido através do site oficial da banda pelo seu clube de fãs (o Ten Club), em lojas de discos verdadeiramente independentes e digitalmente na loja iTunes da Apple, mitigando a narrativa de uma capitulação corporativa total.

Comprovando a eficácia pragmática desta engenharia financeira, Backspacer estreou diretamente no topo da parada norte-americana Billboard 200. Foi a primeira vez que um álbum do Pearl Jam atingiu a primeira posição desde No Code em 1996, uma conquista monumental para uma banda em seu 19º ano de existência. O disco também alcançou o topo das paradas no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia.

O Arcabouço Literário: Livros, Análises e Citações Bibliográficas

A análise de Backspacer deve inevitavelmente recorrer à rica tapeçaria de literatura produzida sobre o Pearl Jam. O álbum é frequentemente discutido não apenas como um produto de entretenimento, mas como um marco de transição existencial, avaliado criticamente por musicólogos, filósofos e biógrafos autorizados.

Pearl Jam Twenty (2011)

Publicado dois anos após Backspacer, o livro monumental Pearl Jam Twenty, compilado pelo jornalista veterano Jonathan Cohen e por Mark Wilkerson, serve como o testamento oficial da banda, elaborado em conjunto com o documentário homônimo do aclamado cineasta Cameron Crowe. Com prefácio do próprio Crowe, a obra fornece uma narrativa triunfal de sobrevivência. Através de entrevistas diretas com todos os membros, Pearl Jam Twenty retrata a era de Backspacer como a recompensa por décadas de turbulência.

Mike McCready é frequentemente citado nestas obras refletindo sobre os dias sombrios do passado em contraste com a clareza alcançada em 2009. Ao falar das fricções da era Vs. (1993), McCready admite que discordou visceralmente do desejo inicial de Eddie Vedder de frear a máquina corporativa e parar de fazer videoclipes: "Eu queria continuar surfando naquilo... Eu pensava: 'Foda-se, nós vamos arruinar isso'. Aquilo ia contra tudo o que eu sempre acreditei. Mas também fez sentido a longo prazo porque estamos conversando um com o outro agora. Eu realmente respeito a visão do Ed. No longo prazo, ele estava certo". Este sentimento de união curada é a fundação de Backspacer. A obra é retratada em Pearl Jam Twenty como o som de homens maduros que finalmente aprenderam a coabitar o mesmo espaço criativo sem os espectros do passado.

Not For You: Pearl Jam and the Present Tense (2020)

Enquanto a narrativa oficial é eufórica, o biógrafo cultural Ronen Givony oferece uma visão cirúrgica e altamente cética no livro Not For You: Pearl Jam and the Present Tense (Não é Para Você: O Pearl Jam e o Tempo Presente). Givony escreve da perspectiva de um fã de longa data que atingiu a exaustão analítica. Em seu livro, o qual estrutura sua crítica atrelando canções da banda à história sociopolítica, Givony se recusa a perdoar os deslizes artísticos do Pearl Jam contemporâneo.

Ao avaliar Backspacer, Givony é implacável. Ele rotula a experiência de ouvir os curtos 36 minutos do álbum como "um teste de resistência". Na visão do autor, o álbum começa com uma corrida vigorosa e promissora antes de, inevitavelmente, perder fôlego ("sputtering out") e aterrissar em um território inócuo e entediante. O ponto central da crítica de Givony é a dependência crônica da banda em arquétipos temáticos que ele descreve como "esgotados pela mineração" ("strip-mined"). Ele argumenta que o álbum induz uma pesada sensação de déjà vu, na qual Vedder explora interminavelmente temas já pacificados, como leves desentendimentos familiares, a adoração fetichista por discos de vinil e os poderes terapêuticos do surfe. A categorização qualitativa de Givony para as faixas do álbum oscila cruelmente "do meramente infeliz ('Got Some') ao francamente inescusável ('Johnny Guitar'); do inócuo ('Just Breathe') ao indiferente ('Supersonic'); do bem-intencionado ('Force of Nature') à pura loucura ('Gonna See My Friend')". Apesar da dureza extrema das palavras, Not For You é considerado essencial para quebrar o verniz idílico que a banda criou ao redor de si mesma, desafiando a música de Backspacer a se manter de pé fora do culto à personalidade do grupo.

Pearl Jam and Philosophy (2021)

Oferecendo uma terceira via analítica, a academia filosófica entrou no debate com a publicação de Pearl Jam and Philosophy, um tratado que investiga as implicações existenciais, éticas e espirituais nas letras de Vedder. Segundo os acadêmicos envolvidos no projeto, a banda atua como um excelente estudo de caso sociológico.

Os autores exploram como os álbuns tardios da banda, notadamente Backspacer e Lightning Bolt (2013), funcionam como argumentações líricas contínuas de que a pureza e a inocência infantil não estão irremediavelmente perdidas na vida adulta, mas podem ser lembradas e recuperadas. No entanto, esta recuperação exige o confronto com o vazio absoluto. O livro postula que Backspacer é assombrado pelo tema da mortalidade, porém, diferentemente do pânico em relação à incerteza política global visto em "Insignificance" (do Binaural), a ansiedade em Backspacer é íntima e biológica. A banda canta sobre o entendimento pacífico de que todas as vidas devem chegar ao fim, substituindo a raiva inútil pela aceitação e gratidão pelo momento presente, uma postura altamente estoica.

A Estética Visual e o Simbolismo de Tom Tomorrow

Complementando a complexidade narrativa e musical, a arte visual concebida para Backspacer apresenta um desvio radical na estética histórica do Pearl Jam. A banda convocou Dan Perkins, um ilustrador político e ativista notório no circuito norte-americano sob o pseudônimo de Tom Tomorrow, famoso por sua influente e subversiva tira em quadrinhos satírica This Modern World. As ilustrações pop-art de Perkins trouxeram um aspecto lúdico, colorido e repleto de referências codificadas ao álbum.

A proposta de Tomorrow foi profundamente intelectual. Segundo o artista, o objetivo não era "apenas ilustrar músicas", mas extrair "imagens, incidentes, sonhos, qualquer coisa que tivesse deixado uma marca psíquica na banda", com preferência para fatos obscuros da vida pessoal dos membros que ainda não tivessem sido dissecados em entrevistas exaustivas. Seu objetivo primordial era reviver a interatividade dos velhos álbuns de vinil, criando uma capa repleta de mistérios visuais sobre as quais os ouvintes se debruçariam por horas. A iconografia instigou tanto a curiosidade que a banda organizou uma sofisticada caça ao tesouro online utilizando a arte geométrica para desbloquear versões em fita demo da música "Speed of Sound".

A gênese do título do álbum ilustra essa complexidade conceitual. Vedder, notoriamente um aficionado pelo uso de máquinas de escrever antigas, observou que a tecla "Backspacer" (a barra de retrocesso) simbolizava a necessidade de voltar atrás na vida e revisar os próprios erros. Stone Gossard expandiu a metáfora, declarando: "Existem alguns humores retrospectivos neste disco, onde Ed está olhando tanto para seu passado quanto para seu futuro". Adicionando um subtexto ambiental, "Backspacer" também batizou uma tartaruga-de-couro marinha que o Pearl Jam patrocinou em associação com a Conservation International e a National Geographic para uma campanha de corrida de tartarugas e preservação oceânica.

A célebre grade de nove ilustrações que adorna a capa de Backspacer fomentou anos de debates em fóruns virtuais, onde entusiastas se dedicaram a tentar desvendar o significado de cada painel misterioso. Abaixo, detalham-se as interpretações comunitárias e semióticas mais consistentes destas ilustrações pop-art:

| Posição da Grade | Elemento Visual Principal | Interpretação Temática / Referência | |---|---|---| | Superior esquerdo | Um trem consumido por chamas ardentes | Alusão à clássica cena do filme Stand By Me (Conta Comigo), explorando o limiar do rito de passagem juvenil, o perigo e o apego ao passado | | Centro absoluto | Um cérebro exposto em um compartimento / Robô | Frequentemente comparado à aparência do vilão cibernético Krang da cultura pop, teoriza-se que a imagem é uma representação da mente fechada ou de ideias estocadas, espelhando a faixa "Unthought Known" | | Superior direito | Uma cidade submersa sob as águas, e a tartaruga | Crônica visual da ansiedade com as mudanças climáticas, possivelmente retratando a cidade de Seattle inundada, complementada pela presença da tartaruga marinha "Backspacer" flutuando acima da civilização destruída | | Painel vário | Baterista flutuando solitário no espaço sideral | Facilmente assimilado à essência cósmica e extraterrestre da canção frenética "Supersonic", indicando a transcendência isolada proporcionada pela música ruidosa | | Inferior central | Indivíduo confiante ladeado por pernas femininas gigantescas | Tradução literal e visual da canção "Johnny Guitar". As pernas retratadas foram dissecadas por fãs como uma réplica intencional do famoso pôster de Raquel Welch, que serviu de camuflagem na cela do filme The Shawshank Redemption (Um Sonho de Liberdade) | | Inferior vário | Silhuetas femininas dinâmicas | Fãs postulam tratar-se de uma amálgama visual das famosas silhuetas heroicas da série televisiva clássica As Panteras (Charlie's Angels) |

Ficha Técnica Oficial do Álbum

Uma compreensão aprofundada da obra requer o conhecimento exato de suas engrenagens criativas. Pela primeira vez desde No Code de 1996, o vocalista Eddie Vedder escreveu, solitariamente, 100% de todas as letras presentes nas onze canções de um álbum do Pearl Jam. Contudo, a base musical instrumental atesta a democracia funcional que a banda atingira, exibindo a vitalidade criativa plural de Ament, Cameron, Gossard e McCready. A arquitetura oficial de Backspacer:

| # | Faixa | Letra | Música | Duração | |---|---|---|---|---| | 1 | Gonna See My Friend | Vedder | Vedder | 2:47 | | 2 | Got Some | Vedder | Ament | 3:01 | | 3 | The Fixer | Vedder | Cameron, McCready, Gossard | 2:57 | | 4 | Johnny Guitar | Vedder | Cameron, Gossard | 2:49 | | 5 | Just Breathe | Vedder | Vedder | 3:34 | | 6 | Amongst the Waves | Vedder | Gossard | 3:57 | | 7 | Unthought Known | Vedder | Vedder | 4:08 | | 8 | Supersonic | Vedder | Gossard | 2:38 | | 9 | Speed of Sound | Vedder | Vedder | 3:34 | | 10 | Force of Nature | Vedder | McCready | 4:03 | | 11 | The End | Vedder | Vedder | 2:57 |

Músicos participantes: Eddie Vedder (vocais, guitarra principal e base), Mike McCready (guitarra principal), Stone Gossard (guitarra base), Jeff Ament (baixo), Matt Cameron (bateria, percussão) e Kenneth "Boom" Gaspar (órgão e teclados).

Análise Faixa a Faixa

Adentrando a tapeçaria sonora e lírica que forma as onze composições de Backspacer, percebe-se um disco fraturado entre o retorno a uma simplicidade visceral enérgica e o peso inevitável de um profundo pragmatismo adulto. A seguir, uma desconstrução detalhada de cada faixa, integrando percepções teóricas, relatos de estúdio, avaliações da crítica e declarações dos músicos sobre sua concepção.

1. Gonna See My Friend

Composta em sua totalidade (música e letra) por Eddie Vedder, "Gonna See My Friend" quebra a inércia do álbum com extrema violência sônica em seus curtíssimos 2 minutos e 47 segundos. A canção repousa sobre power chords contundentes e um riff de guitarra ríspido executado por Mike McCready, capturando a energia punk imaculada de bandas clássicas. Em uma rara entrevista realizada no camarim do Molson Amphitheatre, em Toronto, para a publicação The Globe and Mail, Vedder ofereceu um panorama de seu estado de espírito em relação à obra, confessando que as canções se escreveram de forma intuitiva, fluindo sem o estigma de soarem como um "dever de casa". O cantor descreveu especificamente a faixa de abertura como um rockeiro durão e de alta voltagem, declarando que a canção "gosta de ser ouvida alta".

Na visão interpretativa dos críticos musicais e da comunidade de fãs mais engajada (presente nos vastos fóruns do site oficial e repositórios paralelos), a faixa divide um parentesco de DNA irrevogável com a canção "Breakerfall", faixa de abertura do subestimado álbum Binaural de 2000. Ambas as canções funcionam como duas faces de uma mesma moeda, exalando uma aura solta, imprudente e com a energia vital de quem joga todas as suas fichas na mesa simultaneamente. Liricamente, a composição evoca um desespero controlado. A súplica repetitiva do eu-lírico por um alívio químico ou amigável atesta que, mesmo no otimismo alardeado da era Obama, as fragilidades e dores crônicas exigem lenitivos poderosos.

2. Got Some

Construída instrumentalmente pela mente irrequieta do baixista Jeff Ament e estruturada ritmicamente por seus fortes sulcos propulsivos de baixo, "Got Some" é uma corrida incessante de três minutos. A canção estabelece sua importância cultural por ser a primeira apresentação sonora da nova estética da banda, sendo apresentada ao vivo de forma retumbante como atração musical no episódio de estreia de Conan O'Brien à frente do célebre programa noturno The Tonight Show em meados de 2009.

O produtor Brendan O'Brien assegurou que as batidas rítmicas do disco mantinham o enfoque inabalável, e "Got Some" reflete brilhantemente isso. Vedder ressaltou que a música possuía fortes inclinações rítmicas oriundas do pop new-wave oitentista, algo que ele desejava explorar. Embora traga ecos do passado punk-rock de faixas formidáveis como "Save You" de 2002, sua estrutura tem a objetividade crua e sem adereços do Ramones. O escritor Ronen Givony, contudo, é sumariamente impiedoso com a faixa em seu livro Not For You, reduzindo a sua urgência propulsora à condição de um esforço "meramente infeliz", atestando o esgotamento precoce de sua estrutura formulaica na sequência do disco. Apesar do ceticismo da ala purista, a faixa triunfou em estabelecer a sonoridade contemporânea de "arena rock curto" do grupo.

3. The Fixer

A terceira posição pertence à inquestionável peça central mercadológica da obra: "The Fixer". Fruto de um comitê criativo musical integrado por Matt Cameron, Stone Gossard e Mike McCready, este single foi responsável por recolocar o nome do Pearl Jam em posições comerciais dominantes que haviam se tornado incomuns para o grupo no século XXI. Apresentando um arranjo direto e livre das jams tortuosas de discos do final dos anos 90, a canção entrou na cobiçada Billboard Hot 100 americana em 56º lugar e impulsionou-se à impressionante 3ª posição nas paradas específicas de rock alternativo. Seu poder de atração não passou despercebido pela academia, rendendo ao conjunto uma indicação formal ao 52º Grammy Awards na categoria de Melhor Canção de Rock.

O produtor Brendan O'Brien declarou abertamente que percebe "The Fixer" não apenas como uma peça central de Backspacer, mas como uma das maiores músicas de todo o amplo catálogo do grupo. O'Brien enaltece a extrema concisão da faixa, as melodias memoráveis do refrão e os versos simplistas que entregam uma narrativa pragmática sem que o autor pareça "estar se esforçando demais" de maneira pedante ou artificial. A tônica lírica é focada inteiramente na filosofia do pragmatismo reparador: se há frieza, coloque fogo; se há escuridão, acenda uma luz.

Conforme mencionado, a música serviu de base para uma polêmica campanha corporativa e um comercial televisivo para a loja de departamentos Target. Essa exposição midiática utilizou quadros retirados do formidável videoclipe dirigido por Cameron Crowe (notável biógrafo visual do grupo e o homem por trás do aclamado longa-metragem Singles da era de ouro grunge). Apesar da repercussão controversa e da acusação de mercantilismo exacerbado, o vigor exalado em "The Fixer" conseguiu pacificar a crítica, com veículos notando ser a prova viva de que a banda recusava-se a envelhecer e desvanecer silenciosamente de volta para as margens irrelevantes da música.

4. Johnny Guitar

Poucas faixas em toda a carreira do Pearl Jam dividiram tantas opiniões de forma tão extremada quanto os meros dois minutos e quarenta e nove segundos que compreendem "Johnny Guitar". Estruturada a partir do som idiossincrático orquestrado pelos ritmos do baterista Matt Cameron em união com Stone Gossard, a obra carrega uma pegada sônica quase farsesca e irregular, reminiscentes das composições hard rock da banda irlandesa Thin Lizzy, numa estética quase artificial (ou faux-Thin Lizzy, nas palavras cortantes do site de análise Chimpomatic).

De um lado do debate, a canção enfrenta a fúria e o repúdio implacável de analistas. Ronen Givony, em seu livro Not For You, a chama explicitamente de um erro "francamente inescusável" ("frankly inexcusable"), ressaltando o esgotamento criativo em se criar caricaturas líricas e musicais rasas no lugar da substância trágica que elevou a banda à lenda. Da mesma forma, críticas como as publicadas no site Stereogum perguntam com exasperação genuína: "Existe alguém que realmente goste desta música?", reclamando do seu ritmo desajeitado e moroso ("plod") que quebra drasticamente a inércia vital conquistada pelo primeiro bloco do disco.

Diametralmente em oposição, a visão no centro das trincheiras da gravação foi profundamente distinta. Brendan O'Brien a destacou como um dos seus momentos preferidos e um ponto alto das sessões no Henson Studios. O veterano produtor contextualizou a faixa explicando que o tema da música é enraizado numa narrativa impressionante e subversiva focada na figura histórica de Johnny "Guitar" Watson, formidável mestre do blues e do funk. Segundo O'Brien, a gravação de "Johnny Guitar" é primordial para entender a evolução madura do vocalista; a obra exemplifica magistralmente o excelente senso de humor de Eddie Vedder brilhando através das rachaduras de seu antigo personagem taciturno. É uma incursão não convencional e despreocupada, indicativa de homens que já não necessitam provar incessantemente seu tormento psicológico existencial aos ouvintes e puristas.

5. Just Breathe

O clímax emocional de Backspacer repousa integralmente nos acordes acústicos de "Just Breathe", uma balada de imensa vulnerabilidade onde todos os floreios barulhentos são varridos em prol do silêncio existencial. Composta integralmente por Vedder, e possivelmente moldada artisticamente a partir dos ecos solitários e rústicos da trilha sonora folclórica e premiada de seu álbum solo Into the Wild de 2007, a canção rapidamente alavancou-se como um clássico inegável no vasto repertório romântico do quinteto de Seattle.

Brendan O'Brien alertou os ouvintes de que as cordas meticulosamente desenhadas sob a batuta de Eddie Horst seriam capazes de "partir seus corações", evocando paralelos com a grandiosidade contida, mas devastadora de músicas como "Better Man" e "Faithfull". Na ensaística online escrita por Douglas Vigliotti, dedicada exclusivamente à maestria e poder desta faixa, Vigliotti argumenta brilhantemente que não há qualquer sentimentalismo barato ("hooey") na obra; é uma prova atemporal de romantismo honesto de um homem confrontando resolutamente a inegável e assustadora finitude das coisas: "Sim, eu entendo que toda vida deve ter um fim / Enquanto sentamos sozinhos, percebo que algum dia devemos partir".

O apelo e as implicações filosóficas de "Just Breathe" também reverberam nos pilares teóricos acadêmicos estabelecidos pelo livro Pearl Jam and Philosophy. No contexto argumentativo proposto pelas mentes da academia, o Pearl Jam atua mitigando o terror provocado pela morte inevitável. Quando Vedder murmura, no que Vigliotti chama de "apelo de vulnerabilidade nonchalant" para que sua figura amada simplesmente "permaneça com ele", a mensagem transcende o amor conjugal para se tornar um tratado ontológico existencial. "Just Breathe" professa o valor superlativo do mundano sobre o transcendental. O ato literal de apenas continuar respirando junto àquele que se ama substitui, em grandeza e peso filosófico, qualquer epifania mística de ordem superior.

6. Amongst the Waves

A arquitetura harmônica construída pelo guitarrista rítmico Stone Gossard pavimentou o caminho para "Amongst the Waves", uma fusão engenhosa dos acordes clássicos inconfundíveis da banda, com o imutável amor de Vedder pela filosofia metafórica contida nos oceanos e na cultura do surfe. Lançada oficialmente como o terceiro single do disco no verão de 2010, a música cresce da quietude até tornar-se um imenso hino de arena que aborda os rigores dos relacionamentos profundos utilizando a instabilidade das cristas das ondas como tela metafórica e comparativa.

Em uma entrevista formidável concedida no jornal The Globe and Mail, a banda discutia a dinâmica interna do estúdio, oferecendo um vislumbre das estruturas psicológicas recém-encontradas do grupo: "A força deste álbum faz com que nos sintamos muito bem em relação ao estado onde a banda se encontra", revelou Vedder, em uma rara explosão de abertura e transparência, "nossa relação transformou-se em algo direto... somos abertos e honestos... nos sentimos como um grupo galvanizado de indivíduos. No que concerne às ondas [da vida e dos relacionamentos], creio que estejamos bem no alto delas". Gossard também corroborou com orgulho, citando que ele via nesta canção "marcas clássicas registradas" e a sensação gloriosa de retorno a territórios imaculados do passado ("earmarks of Pearl Jam").

Um detalhe precioso sobre o ofício instrumental emerge de entrevistas concedidas pelo guitarrista principal Mike McCready à revista Premier Guitar a respeito do extenso processo exigido pelo produtor na gravação dessa faixa. Diferente da liberdade selvagem e espontânea ("preguiça" criativa que ele admite frequentemente pautar seus licks ao vivo), o produtor Brendan O'Brien impôs uma barreira rigorosa em "Amongst the Waves", ordenando a McCready que compusesse, arquitetasse de antemão, e apenas então executasse um solo delineado e milimetricamente planejado para a gravação de estúdio. Este rigor formal resultou em uma progressão melódica coesa e perene, considerada amplamente por analistas (como os do site conservador de crítica musical Sloucher) como a força motriz salvadora da seção intermediária do CD.

7. Unthought Known

A sétima passagem de Backspacer, inteiramente esculpida musical e liricamente pela mente de Vedder, carrega indiscutivelmente a coroa de profundidade intelectual do registro. Apesar de a obra exibir, na superfície sônica, um brilho de hino inspiracional catártico, e O'Brien relatar a fluidez ininterrupta no estúdio onde a banda abraçava seu talento sem tensão, a essência filosófica e semântica de "Unthought Known" foi ancorada quase que parasitariamente nas entranhas teóricas de um livro profundo de psicologia clínica moderna.

O conceito, exposto e esmiuçado academicamente no livro Pearl Jam and Philosophy, origina-se do aclamado trabalho do psicanalista e estudioso freudiano britânico Christopher Bollas e sua seminal publicação de 1987 intitulada The Shadow of the Object: Psychoanalysis of the Unthought Known (A Sombra do Objeto: Psicanálise do Sabido Não Pensado). Na estrutura complexa do léxico de Bollas, este conceito obscuro delineia aquelas vastas e esmagadoras verdades sensoriais, influências atávicas e registros precoces de eventos não compreendidos que estão arraigados e codificados no âmago inconsciente de todo ser humano desde a formação. Tais experiências intrínsecas atuam moldando silenciosamente nosso ser de forma contínua, mesmo estando perpetuamente ausentes da linguagem racional e sendo impossíveis de serem "pensadas" ou conceituadas adequadamente por nossa cognição.

Sob esta óptica psicanalítica, Vedder escreveu uma ode que conclama um despertar brutal. Ele encoraja os indivíduos a mergulharem no abismo escuro do próprio ser e iluminarem esses arquivos obscuros ocultos (o conhecimento inato e sombrio), expondo o coração em busca de ressignificação e epifania ("Look for love in evidence", procure por amor nas evidências). O escritor acadêmico e filósofo descreve que tal arranjo confere uma "espiritualidade calorosa" à canção e orquestra com sucesso um dos mais intrincados experimentos de Vedder em aliar cultura pop de massa com hermenêutica psicológica de alto padrão intelectual. A música serve como ponte perfeita conectando as emoções viscerais da geração grunge à intelectualidade reflexiva amadurecida que a banda adquiriu aos quarenta e poucos anos de idade.

8. Supersonic

Se "Unthought Known" é um monumental e exaustivo mergulho na cognição profunda e esotérica do intelecto, a oitava faixa do álbum serve de contraponto necessário com um violento banho de simplicidade rude e punk-rock. A progressão febril de acordes creditada integralmente ao guitarrista Stone Gossard em "Supersonic" atinge os frenéticos 2 minutos e 38 segundos e coroa a obra como a fatia mais ligeira, acelerada e ruidosa de todo o experimento de Backspacer. Originalmente, a música operava tão independentemente do material dramático e solene do álbum que chegou a vazar antes do lançamento formal, sendo espremida inicialmente como um insignificante "b-side" para as edições promocionais físicas do single "The Fixer".

As análises da faixa exibem fraturas nítidas entre os historiadores do Pearl Jam. Em sua ferrenha desconstrução dos demônios e clichês recorrentes da fase final da banda descrita na bíblia analítica de decepção Not For You: Pearl Jam and the Present Tense, o autor Ronen Givony minimiza a importância da canção despachando-a apaticamente à caixinha dos erros "indiferentes" de um disco cansativo e repetitivo. Outros veículos contemporâneos a avaliaram como incipiente ou apenas um rascunho de som garagem que faltava fôlego, contudo os musicólogos mais flexíveis notam nela uma alegria jovial fundamental. "Supersonic" não intenta curar dores; a música é inteira e exclusivamente um tratado romântico barulhento do homem e seu amor desenfreado por simplesmente consumir música. A homenagem devocional e nostálgica de Vedder ao ato físico primitivo de "viver com música e ouvir discos antigos de vinil muito alto" comprova a tese central abordada em Pearl Jam Twenty: a banda reconectou-se com a força gravitacional da música como elemento não mais traumático, mas como fonte genuína e indestrutível de pura alegria mundana.

9. Speed of Sound

Assumindo a cadência melancólica frequentemente inerente às obras autorais exclusivas de Vedder, "Speed of Sound" afasta-se de distorções elétricas frenéticas em favor de uma paleta sônica introspectiva, quase contida em uma atmosfera sombria moldada pelo arranjador Brendan O'Brien. Mais notavelmente, "Speed of Sound" não conquistou seu status prioritário na base de fãs apenas pelo mérito da tristeza esparsa e isolamento palpável dos acordes vocais, mas pelo pioneirismo de marketing experimental que a cercou às vésperas do lançamento do álbum.

No intuito de trazer a exploração misteriosa da "arte tátil de capa de disco da era de ouro do vinil" sugerida pelos preceitos excêntricos do artista pop Tom Tomorrow, a banda engajou a internet através do site oficial, deflagrando uma caça virtual ao tesouro ("scavenger hunt") recheada de fragmentos codificados entremeados na bizarra imagem pop-art do álbum. À medida que a base de fãs se digladiava online buscando os indícios nas figuras esdrúxulas que iam do pântano urbano de Seattle submersa sob águas oceânicas até silhuetas da cultura pop cinematográfica de outrora (como os pôsteres femininos da parede da infame prisão de Shawshank), os vencedores virtuais desta charada criptografada desbloquearam, de maneira surpreendente, arquivos contendo a versão germinal tosca e crua em fita demo ("rough demo") desta exata faixa. Esta incursão inteligente sublinha a habilidade pragmática descrita pelos críticos (e pelos defensores do acordo polêmico com redes varejistas) onde o Pearl Jam se utilizou majestosamente do aparato do século XXI para manter sua mística.

10. Force of Nature

Posicionada estrategicamente na retaguarda penúltima do alinhamento do CD, a robusta e ritmada "Force of Nature" surge sustentada pelos alicerces do guitarrista principal, Mike McCready, o criador isolado da infraestrutura rítmica desta peça. Desviando deliberadamente das inclinações punk ou minimalistas da banda, "Force of Nature" exibe a grandiosidade espessa de uma sólida marcha musical de quatro minutos impulsionada por tons mais baixos ("bottom-heavy"), proporcionando coesão métrica a um álbum estruturalmente tão heterogêneo e efêmero.

Ronen Givony, em seu livro iconoclasta Not For You, mais uma vez, confina a canção ao espectro da mediocridade funcional, atirando o adjetivo cínico e paternalista de "bem-intencionada" sobre ela, sugerindo que o ímpeto criativo dos ex-rebeldes envelheceu rumo à complacência burguesa ("well meaning (Force of Nature) to pure folly"). No entanto, avaliações em tempo real provenientes de jornais independentes ingleses e críticos puristas frequentemente salvam a robustez do arranjo de O'Brien, indicando-a como o último vislumbre poderoso de estabilidade clássica e peso gravitacional genuíno num disco onde as canções tendem perigosamente a soar excessivamente amigáveis para as rádios convencionais de FM.

11. The End

A conclusão do mais curto dos discos de estúdio da banda chega ironicamente num epílogo despido de artifícios em "The End", uma canção de dor esquelética traçada com o instrumental mínimo de um violão acústico dedilhado e o arranjo posterior minucioso de uma corda suave e trompas chorosas. Assim como o encerramento catártico "Parting Ways" amarrava poeticamente os nós trágicos do disco Binaural anos atrás, a última invenção lírica de Vedder no disco carrega um viés taciturno e desolador que confronta explicitamente o mantra efusivo de otimismo político que a máquina publicitária martelou à exaustão.

Como o produtor O'Brien observou acuradamente nas sessões documentadas, Vedder, embora em paz com a vida e com seus irmãos de banda em um estúdio harmonioso e feliz, não abandonou o cativeiro de suas próprias dúvidas. A canção funciona como a admissão desoladora e sem pudores de que toda vitória humana é puramente efêmera. Quando Vedder performou de surpresa, sentado melancolicamente num minúsculo banco durante a excursão em Londres semanas antes do álbum sequer atingir o interior decadente das grandes prateleiras de lojas corporativas da Target, o tom quebrado da obra previu o fim. O álbum termina numa rendição, admitindo poeticamente que o conforto conjugal e a adoração comercial das multidões nunca suprimem verdadeiramente a falibilidade inevitável ("O fim").

Recepção Crítica Contemporânea e Performance de Mercado

Quando o experimento musical corporativo e emocional chamado Backspacer deitou raízes no cenário roqueiro agonizante de setembro de 2009, as métricas e resenhas críticas desvelaram um cenário altamente fraturado, oscilando abruptamente do júbilo extasiado à desconfiança condescendente.

Jornais veneráveis e tradicionais, notavelmente exemplificados na profunda resenha literária do periódico britânico The Guardian, aplaudiram de pé a fênix da era grunge. A publicação celebrou sem pudores os músicos não apenas por encontrarem a salvação de sua letargia e redescobrirem integralmente sua "magia perdida" (mojo) com um vigor que lembrava suas obras formativas explosivas do passado, mas elogiou copiosamente a coragem em abraçar influências ecléticas de formações veteranas que outrora detestavam, observando aprovações honrosas como arranjos pastorais arrebatadores ("Just Breathe") ou alusões grandiloquentes aos timbres de guitarra estrondosos e refrões característicos da realeza britânica da década de oitenta. O resenhista argumentou perigosamente que Backspacer teria força suficiente para brigar duramente pela coroa de melhor trabalho do catálogo inteiriço da banda.

Diametralmente contrastante, o braço vanguardista do esnobismo alternativo personificado pelo respeitadíssimo bastião indie Pitchfork Media atacou o álbum impiedosamente com uma mísera nota funcional de 6.4 de 10, despindo o grupo de suas glórias. O escrutínio frio do veículo postulou o doloroso diagnóstico literário de que sem os alvos governamentais autoritários nefastos, e as frustrações contra a gigantesca indústria corrompida do final dos anos 90, restava uma banda em apuros, sofrendo em risco terminal de parecer hipócrita, vaidosa e "santimoniosa" ("sanctimonious"). A Pitchfork resumiu asperamente o desinteresse generalizado das composições: "Com as luzes dos holofotes há muito apagadas para as pautas revolucionárias, o Pearl Jam parece acomodado em operar dentro da mais restrita cartilha de regras estabelecidas" ("doing things by the book"). Publicações secundárias de peso como o Drowned in Sound, numa respeitosa mas morna nota 7.0, também refletiram tal desconfiança de que o ritmo jovial exagerado soava ligeiramente patético nas canções mais barulhentas para homens de 45 anos com os cofres abarrotados, contudo eximiram o todo atestando que suas pérolas pontuais valiam a investida nostálgica.

As incertezas retóricas dos escribas da crítica musical britânica e americana soçobraram prontamente frente aos fatos gélidos das registradoras financeiras e de estatística industrial. Amparado pela massiva força motriz infalível das campanhas corporativas da Verizon, pela enxurrada insensível dos comerciais em rodízio televisivo contínuo liderado pelo gênio de Cameron Crowe e pelas vendas exclusivas da rede predatória da Target, Backspacer oblitera as barreiras de uma década e meia de ausência na coroa do mainstream mundial. O disco alcança e aniquila as tabelas de forma contundente: assumiu fulminantemente a coroa no topo e na 1ª posição irrefutável na monumental e decisiva parada americana da célebre Billboard 200, um pico comercial estratosférico de aceitação das massas que não acontecia magicamente para a banda desde as águas turbulentas e os lutos do histórico e divisivo No Code em longínquos meados de 1996.

Conclusão

Analisar exaustivamente o álbum Backspacer, perscrutando as evidências deixadas nas páginas das teorias ontológicas psicanalíticas rigorosas derivadas das interpretações do pensador freudiano Christopher Bollas em "Unthought Known"; atravessando os escrutínios implacáveis do fã purista decepcionado e ferido de Ronen Givony que preenche cada linha sangrenta de seu livro demolidor Not For You; até abraçarmos o coro ufanista de superação corporativa chancelado de maneira documental no diário oficial aprovado Pearl Jam Twenty, exige da historiografia e da sociologia contemporânea muito mais do que decodificar três ou quatro acordes dispostos de forma competente pelos guitarristas experientes do grupo.

O registro curto, de exíguos 36 minutos de fita analógica lapidados milimetricamente pela intervenção e imposição metódica estruturalista rigorosa do veterano mestre da mesa de edição de Atlanta, o produtor Brendan O'Brien, simboliza verdadeiramente uma das maiores provas empíricas e o grande rito de maturidade das lendas de Seattle sobreviventes da mortalidade crônica no rock'n'roll. Ao mergulharmos profundamente nas águas deste nono álbum das fileiras do catálogo, presenciamos o retrato em carne viva de seis instrumentistas e homens abastados renunciando intencionalmente ao desespero performático da juventude amargurada dos escombros corporativos do início da década de noventa, que se mostravam perigosos a longo prazo. A obra assinala a conformidade agridoce em perdoar atalhos pragmáticos comerciais como propagandas no final da era do formato compact disc, apenas para garantir a sobrevida e o fôlego irrestrito do quinteto. É no extermínio dos ruídos de suas próprias glórias intocadas que a obra subsiste brilhante. Desde a ode enraivecida para os discos barulhentos tocados à exaustão num amplificador valvulado e reverberado por distorções antigas ("Supersonic") até o último desespero romântico de um existencialista acossado pela finitude na balada mais solitária já escrita na escuridão sem platitudes falsas ("Just Breathe"), a obra desfaz o passado para salvar as engrenagens de um futuro longevo. O Pearl Jam de Backspacer, decifrado nesta análise exaustiva e multidisciplinar, triunfou com coragem avassaladora utilizando uma máquina enferrujada para apertar a tecla de retrocesso nos erros obscuros e apagar traumas irrelevantes que ameaçavam destruir uma de suas raras histórias felizes na música.