'Let the Records Play' é a nona faixa do Lightning Bolt (2013), e uma das peças mais diretamente nostálgicas do álbum. A música é de Stone Gossard; a letra é de Vedder. A música é uma reflexão sobre o disco de vinil como objeto físico e cultural, escrita no período em que o vinil estava experimentando seu segundo renascimento comercial (o início dos anos 2010) e em que a questão de como a música é consumida tinha se tornado culturalmente legível de novo depois de uma década de domínio do mp3.
A letra é uma das composições mais diretas de Vedder sobre a música como ritual diário. O narrador descreve a experiência de colocar um disco no fim do dia e enquadra a prática não como nostalgia, mas como aquele tipo de manutenção contínua que qualquer relação sustentada com a música exige. O argumento da música é estrutural em vez de tópico: o vinil é o exemplo, mas o ritual é o tema. Essa é uma preocupação de Vedder que vai de 'Spin the Black Circle' no Vitalogy até essa música duas décadas depois.
O arranjo é uma das peças mais marcadas pelo blues de Stone Gossard no Lightning Bolt. O verso é construído sobre uma progressão de acordes lenta carregada pela figura de slide guitar de Gossard; o refrão se abre numa movimentação harmônica mais ampla que deixa McCready solar no centro da música. A bateria de Matt Cameron na gravação usa vassourinhas durante os versos e baquetas durante os refrões, uma mudança de textura que espelha o movimento da letra da reflexão interior pra declaração externa.
Ao vivo, 'Let the Records Play' tem sido presença regular, embora não pesada, em setlists desde 2013. A música funciona melhor na segunda metade do set, onde sua sensação de blues lento pode marcar uma mudança tonal antes do surto de encerramento.
Letra de Vedder, blues sobre quem se medica com música. A música é uma das mais escuras de Lightning Bolt apesar do tom blues casual, retrato de figura solitária que substitui terapia por vinil.
A decisão tradutória central foi 'When the Kingdom comes / He puts his records on'. 'Kingdom comes' é referência à oração do Pai-Nosso ('Thy kingdom come', venha a nós o teu reino). O personagem responde à chegada do reino divino pondo discos. 'Quando o Reino chega / Ele põe os discos' preserva a referência teológica.
'With his blistered thumb hits play' é detalhe físico revelador. O polegar calejado é de quem aperta play repetidamente. 'Com o polegar calejado aperta play' devolve a marca do hábito.
'A cigarette lights hymn / Vaporized a green light grin' é a passagem mais oblíqua. O cigarro acende o hino (jogo entre 'lights' como verbo e 'hymn' como objeto religioso), e a luz verde do mostrador da vitrola produz sorriso. 'Um cigarro ilumina o hino / Vaporizou um sorriso de luz verde' preserva a estranheza.
'And when the shotglass talks / He knows to listen up / Until he's nice and numb again' é o ritual etílico. O copo de dose fala, o personagem escuta, fica entorpecido. 'Quando o copo de dose fala, Ele sabe ouvir, Até ficar bem dormente de novo' preserva o vocabulário religioso ('listen up' = preste atenção) aplicado a bebida.
'Kneeling, his healing / He lets the records play / There's wisdom in his ways' é o fechamento melancólico. O personagem ajoelhado curando-se através do disco. 'Ajoelhado, ele se curando / Ele deixa os discos tocarem / Há sabedoria nos modos dele' devolve a dignidade dada pelo narrador a quem usa música como remédio.
Em 11 de novembro de 2015 na Arena do Grêmio, 'Let the Records Play' chegou no décimo sexto slot do show como mais uma faixa da era Lightning Bolt, um tributo liderado por Stone Gossard a uma cultura de escuta da era do vinil. A estrutura compacta de menos de quatro minutos serviu à função de cadência do slot: uma âncora de meio de set na segunda metade do show pesada em material do Lightning Bolt.