'My Father's Son' é a décima primeira faixa do Lightning Bolt (2013), uma das peças mais sombrias do álbum. A música é de Jeff Ament; a letra é de Vedder. A música é uma das letras mais diretas do catálogo tardio do Pearl Jam sobre dano herdado, os padrões de comportamento que passam de pai pra filho sem que ninguém na cadeia escolha transmiti-los.
A letra é uma das peças mais interiores de Vedder sobre família. O narrador se dirige a uma figura não nomeada (o argumento da música mantém o destinatário deliberadamente ambíguo, permitindo que o ouvinte mapeie a figura na própria experiência) e enquadra a herança de padrões de comportamento como condição estrutural em vez de falha moral de qualquer um. A música não editorializa sobre como quebrar a herança; documenta o reconhecimento de que a herança existe e deixa o andamento da música carregar o peso emocional.
O arranjo é uma das peças mais propulsivas de Jeff Ament no Lightning Bolt. O verso é construído sobre uma figura compacta de seção rítmica carregada principalmente pela linha de baixo de Ament; o refrão se abre numa movimentação harmônica mais ampla que resolve pela ponte num solo de McCready. A bateria de Matt Cameron empurra o andamento pra frente sem desfalecer.
Ao vivo, 'My Father's Son' tem sido presença regular em setlists desde 2013. A música funciona melhor no início e meio do set, onde seu peso pode estabelecer um registro tonal sem se comprometer com um pico.
Letra de Vedder, retorno ao tema biográfico do pai. Diferente de Alive (onde o pai era figura nomeada e a descoberta era confusa), aqui o pai já é diagnosticado como psicopata e o narrador admite que herdou a genética. A música é uma das mais cruas do catálogo recente.
A decisão tradutória central foi 'I'm a volunteer amputee'. 'Volunteer amputee' (amputado voluntário) é construção rara em inglês, sugerindo que o narrador quer cortar a parte de si mesmo que veio do pai. 'Sou amputado voluntário' preserva o tropo cirúrgico aplicado a herança genética.
'This gene pool drowning me' usa 'gene pool' (poço genético, jargão de biologia) como armadilha física. 'Esse poço genético me afogando' devolve a leitura literal do termo técnico que vira metáfora.
'Got me tooth and nail' é expressão idiomática ('com dente e unha' = com toda a força disponível, briga até a morte). A construção 'got me' faz a frase soar como ataque sofrido. 'Me pegou com dente e unha' preserva a expressão e devolve o sentido de quem foi atacado pelo próprio DNA.
'With this your young long lost son / And he's never had dear old dad' é o pedido final. O narrador se anuncia como filho perdido há tempos, sem nunca ter tido pai. 'Com este, teu jovem filho perdido há tempos / E ele nunca teve o querido velho pai' preserva a ambiguidade da terceira pessoa: o narrador fala de si como personagem.
'I gotta set sail' fecha a música com a única saída possível: partir. 'Tenho que zarpar' devolve o vocabulário náutico de quem precisa sair do continente onde a herança se sustenta.
Em 17 de novembro de 2015 no Mané Garrincha, 'My Father's Son' chegou no décimo terceiro slot do show como uma das faixas da era Lightning Bolt que a Latin American Tour 2015 vinha usando como âncora de deep cut. A narrativa da música (um filho herdando o peso psicológico do pai, em diálogo com o catálogo mais amplo de Vedder com material temático de pais a partir de 'Alive') carregou seu peso acumulado pra apresentação de 2015.