SÓ MAIS UM FÃ DE PEARL JAM

Soon Forget

Disco: Binaural (2000) · Tocada 55 vezes ao vivo pelo Pearl Jam · estreia ao vivo em 10/05/2000 · última vez em 10/05/2016

Interpretação

'Soon Forget' é a décima primeira faixa de Binaural (2000), uma das peças estilisticamente mais incomuns no catálogo do Pearl Jam. A canção é executada por Vedder solo no ukulele; não há outra instrumentação. Essa foi a primeira aparição do ukulele numa gravação do Pearl Jam, antecedendo o álbum solo Ukulele Songs de Vedder em mais de uma década. A canção é, portanto, a semente de uma direção estilística inteira que Vedder exploraria mais plenamente nos anos 2010.

A letra é uma das composições mais satíricas de Vedder sobre riqueza como substituto para significado. O narrador descreve uma figura rica cujas posses acumuladas não produziram nenhuma da satisfação que a figura esperava e enquadra a sina da figura não como falha pessoal mas como aquela modalidade de decepção estrutural que acumulação material tende a produzir. A canção não comenta sobre se a figura pode mudar de curso; documenta a decepção e deixa a pequena escala do ukulele carregar a sátira.

O arranjo é uma das peças mais despojadas no catálogo do Pearl Jam. Vedder toca o ukulele sozinho, e a banda não entra em nenhum momento durante a canção. A escolha de gravar esse material como faixa de álbum do Pearl Jam em vez de aside solo (o que teria sido mais convencional na lógica do catálogo da época) foi um gesto estilístico deliberado da banda, sinalizando que o vocabulário do Pearl Jam não estava limitado ao formato banda-de-rock.

Ao vivo, 'Soon Forget' tem sido presença regular mas não pesada no setlist desde 2000. A canção funciona melhor como momento Vedder-no-ukulele no meio de um set, onde sua pequena escala pode marcar uma mudança tonal deliberada. Em shows do Pearl Jam, a canção tipicamente aparece como pausa quieta entre material mais pesado; nos shows solo de Vedder, a canção é mais naturalmente integrada ao material ao redor.

Notas de tradução

Música ukelele de Vedder, sátira a Bill Gates e à classe de ricos que pode comprar tudo menos companhia humana real. Vedder confirmou em entrevistas que a inspiração veio de uma foto de Gates no jornal cercado de bens e visivelmente só, embora a letra não nomeie o alvo.

A escolha tradutória central foi 'Sorry is the fool who trades his soul for a corvette'. A sintaxe invertida (predicativo antes do sujeito) é arcaísmo deliberado, ecoando provérbios bíblicos. 'Triste é o tolo que troca a alma por uma Corvette' preserva a inversão e mantém 'Corvette' como nome próprio do carro icônico americano. Traduzir por 'carro esporte' diluiria o alvo cultural da sátira.

'Thinks he'll get the girl, he'll only get the mechanic' é a piada central da estrofe. O homem rico imagina que o carro garante a mulher, mas só garante a manutenção do carro. 'Acha que vai ficar com a garota, só vai ficar com o mecânico' preserva o trocadilho com 'get' (conseguir, ter, ficar com).

'He's lying dead clutching Benjamins, never put the money down' é o fechamento mortuário. 'Benjamins' é gíria pra notas de cem dólares (que estampam Benjamin Franklin). Optei por preservar 'Benjamins' no português porque a palavra carrega a cultura específica que a sátira ataca; explicar pioraria. O leitor brasileiro pode não captar a referência exata, mas captura o tom de quem morre agarrado ao dinheiro.

'We're all whistling, a man we'll soon forget' é a moral final. O assovio de despedida é gesto leve, quase indiferente, e o homem rico desaparece da memória coletiva apesar de toda a fortuna. 'A gente todo assoviando pra um homem que vamos esquecer logo' devolve a frieza com que a sociedade processa a morte de quem só foi posse.

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